O juiz Jean Garcia de Freitas Bezerra, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, decretou a prisão preventiva do ‘empresário’ José Clovis Pezzin de Almeida, conhecido como Marlon Pezzin, por descumprimento de medidas protetivas expedidas a favor da sua ex-esposa, a estudante de 26 anos, em caso inserido no contexto de violência doméstica prevista na Lei Maria da Penha. A reportagem obteve acesso em primeira mão às decisões que pesaram contra Pezzin, o qual é velho conhecido da Polícia e Justiça de Mato Grosso, já que ostenta diversos processos por centenas de milhares em dívidas, atividade irregular de garimpo, suposto envolvimento com tráfico de drogas, “rachas” com carrões, e outro caso de agressão contra mulheres.
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Mandado foi expedido pelo juiz no plantão deste domingo (7), após tomar conhecimento que Pezzin descumpriu, reiteradamente, medida protetiva de urgência deferida em 26 de novembro em favor da vítima, o que, segundo Jean Garcia, demonstrou seu desprezo pela ordem judicial e colocou a ex-companheira em situação de risco contínuo.
O magistrado também considerou que o desrespeito às medidas, pouco dias após ser intimado, demonstra que Pezzin somente cumpriria as ordem judiciais se estiver preso, uma vez que as cautelares se mostraram insuficientes.
“Portanto, tendo em vista todo o exposto, DECRETO A PRISÃO PREVENTIVA DE JOSÉ CLOVIS PEZZIN DE ALMEIDA. Expeça-se mandado de prisão. Advertências e Determinações após o cumprimento do mandado Após as formalidades de registro da prisão, a autoridade policial deverá comunicar o cumprimento do mandado, imediatamente, à autoridade judicial que determinou a expedição desta ordem e, nos casos em que forem cumpridos fora da jurisdição do juiz processante, também à autoridade judicial local competente, conforme lei de organização judiciária, para fins de audiência de custódia”, diz a ordem.
Vale lembrar que, quatro dias antes da determinação de Jean Garcia, a juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá, havia ordenado o cumprimento das medidas protetivas expedidas em favor da ex de Pezzin. No último dia 3, a magistrada assim estabeleceu:
“Ademais, com relação à data de validade das medidas, consigno desde já que estas terão vigência por prazo indeterminado, enquanto persistir a situação de risco à vítima, conforme estabelecido no Tema Repetitivo n. 1249 do STJ. Certifique-se se houve o cumprimento da decisão proferida pelo juízo plantonista e, em caso negativo, cumpra-a, imediatamente. Dê ciência ao Ministério Público, a Delegacia de origem e a Defensoria Pública – Núcleo de Defesa da Mulher.”.
Histórico na Justiça
Centenas de milhares em dívidas, atividade em garimpo, suposto envolvimento com tráfico de drogas, “rachas” com carrões, agressão contra mulheres e prisão: os detalhes da extensa ficha de José Clóvis Pezzin de Almeida, conhecido como Marlon Pezzin. Em maio, o “empresário” somou mais um episódio para o seu histórico: atropelou uma mulher e destruiu o deck de madeira do restaurante Haru, na Praça Popular, em Cuiabá.
O Olhar Jurídico apurou que existem pelo menos 24 processos abertos contra ele na primeira instância da Justiça de Mato Grosso, sendo grande parte por dívidas que ele contraiu com cooperativas de crédito e mineradoras, casos de agressão, inquéritos policiais por tráfico e corridas de carro. Existe ainda um pedido de teste de sanidade mental numa ação em que ele é réu por agredir uma mulher.
Em 2022, a polícia abriu uma investigação contra o homem para apurar a agressão contra a namorada dele. Na denúncia feita à época, a vítima de 32 anos teria sido agredida fisicamente pelo suspeito por volta de 2h da madrugada. José teria dado socos no rosto da mulher que teve vários ferimentos na face e braço. Para se livrar das responsabilidades deste processo, ele argumenta que seria inimputável por incapacidade de entendimento e autodeterminação.
Sua defesa alega que médicos e receituário de medicação de controle especial mostram que ele sofre de distúrbios psiquiátricos, e não se lembra do fato que lhe é imputado.
Em dezembro de 2021, José Clóvis se envolveu em uma confusão próximo a uma boate na Avenida Isaac Póvoas após importunar uma mulher. Segundo relatos, uma testemunha que presenciou a cena chamou sua atenção e, em resposta, José agrediu a pessoa com um soco no rosto. Em seguida, ele teria se dirigido ao estacionamento e, de lá, efetuou um disparo em direção à vítima antes de fugir do local.
Já em 2025, na mesma boate, a Valley, ele agrediu o marido de uma aniversariante, a qual o convidou para a comemoração. Pezzin fez ameaças de morte a ambos, alegando que sua namorada teria sido tocada, o que foi negado pelas testemunhas.
Outros presentes confirmaram perseguição e agressão contra o carro de amigos que pensava serem eles, com novas ameaças e exibição de uma arma. Adicionalmente, o agressor procurou o marido em seu antigo endereço. A comunicante expressou temor por sua segurança e a de seu marido, citando o histórico problemático do agressor e, por isso, buscaram a polícia e a Justiça. Neste caso, ele firmou acordo com as vítimas e pagou R$ 8 mil.
No ano passado, ele foi preso em operação da Polícia Civil de Alagoas que mira em um esquema criminoso de tráfico de drogas em larga escala, além de lavagem de capital. De acordo com o delegado Wilson Cebuski, durante a prisão, Marllon não apresentou resistência. Na casa dele foram encontrados R$ 15 mil em espécie, que foram apreendidos, bem como documentos, computador e outros materiais. Ele segue respondendo esse processo.
Em 17 de janeiro do ano passado, Pezzin se envolveu em um acidente que deixou o frentista Gabriel de Paula, que na época tinha 20 anos, internado em estado grave após uma colisão na Estrada da Guia. No acidente, Pezzin conduzia um Porsche 911 amarelo e estaria disputando um racha quando bateu no Fox da vítima. Gabriel estava saindo do trabalho e ficou em coma durante 15 dias.
A mãe do frentista alegou que o empresário não prestou nenhum tipo de assistência ao filho, que passou por quatro cirurgias, sendo uma delas no cérebro. No boletim de ocorrência, Pezzin culpou o motorista do Fox pelo acidente e alegou que ele teria invadido a pista sem dar seta.
Pezzin é cobrado em Peixoto de Azevedo, pela cooperativa mista de garimpeiros da cidade, a qual lhe acionou cobrando royalties devidos pela extração de minério de ouro. A Cooperativa alega que Pezzin, que possui uma concessão para extrair o minério em sua propriedade, falhou em repassar 1% da produção mineral vendida, conforme estipulado em contrato.
O montante inicial devido era de R$ 154.737,66, mas com a atualização monetária, o valor subiu para R$ 190.809,58. Apesar de várias tentativas de resolução amigável por parte da credora, a situação não foi resolvida, levando à busca por ação judicial para reaver os valores devidos.
A Copemáquinas Comércio de Peças lhe cobra R$ 101 mil referente a um Contrato de Confissão de Dívida assinado em 2021. Em outra ação de cobrança, o advogado Rodrigo Cyrineu lhe cobra R$ 27 mil em honorários. Em 2023, a Unicred ajuizou duas ações monitórias contra Pezzin, uma cobrando R$ 35 mil e outra R$ 75 mil. Já o Sicoob União MT/MS cobra do seu CNPJ, R$ 55 mil referente a um empréstimo feito em 2020.
Na madrugada deste sábado (24), Pezzin se envolveu em mais um caso para somar na sua extensa ficha de processos. Na famosa “Praça Popular”, centro de Cuiabá, ele destruiu o deck de madeira do tradicional Haru, restaurante japonês. Antes disso, ele já havia sido convidado a se retirar do estabelecimento. Do lado de fora, ele usou o carro que dirigia, um Volkswagen Touareg, para colidir contra o espaço instalado em frente ao Haru. Neste momento, ele atropelou uma mulher e teve o carro alvejado por um homem que estava no restaurante.
Mais recentemente, foi processado pelo condomínio onde vive, o residencial de luxo Florais do Vale, capital, por promover festanças com som alto, desrespeitando a vizinhança. Ele foi multado, mas não pagou as punições, e por isso foi acionado na Justiça para quitar R$ 20 mil. A cobrança de multas condominiais foi movida contra Marlon por excesso de barulho. O condomínio afirma que o ele realizou eventos com som mecânico acima do limite legal noturno de 45 decibéis, conforme lei municipal.
Devido às reiterações, foram aplicadas multas administrativas que variam entre 100% e 250% da cota condominial, as quais ele não recorreu e nem quitou após ser notificado.
O valor total atualizado do débito é de R$ 20.853,62, incluindo correção monetária e juros, e o condomínio requer a condenação de Marlon ao pagamento deste montante, além de custas processuais e honorários advocatícios.