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Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

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ASSASSINADO POR POLICIAL CIVIL

“Falharam em proteger a vida do meu pai”: família cobra celeridade do MP após quase dois anos da morte de João Pinto

Foto: Reprodução

“Falharam em proteger a vida do meu pai”: família cobra celeridade do MP após quase dois anos da morte de João Pinto
“Esperamos que a Justiça seja feita e que o Ministério Público dê o andamento necessário”, disse Gysela Pinto, filha de João Pinto, idoso de 87 anos que foi assassinado em 2024 no contexto das invasões fundiárias na região do Contorno Leste, em Cuiabá, onde ele detém uma propriedade que fora ocupada. Procurado pela reportagem, a cúpula ministerial afirmou que está diligente para concluir o caso e buscar as devidas providências e responsabilizações, inclusive ouvindo e agindo com base nos questionamentos feitos pelos Pinto. O principal protesto feito pela família é contra o relatório final da investigação da Polícia Civil, que concluiu o caso como legítima defesa. O disparo foi feito pelo investigador Jeovânio Vidal Gabriel, da Delegacia Especializada de Estelionato e Outras Fraudes.


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“Agora que sabemos que o MP está com o inquérito em mãos, estamos com muita esperança que a justiça seja feita e o MP dê o andamento necessário, finalmente buscando a justiça pela morte do nosso pai. Mesmo depois de tanto descaso e tristeza, ainda confiamos na justiça”, lamentou a filha de Pinto.

A defesa da família acredita que o depoimento do policial apresenta contradições e que o inquérito contém lacunas. Um dos pontos questionados é o fato de Jeovânio ter deixado o local logo após constatar que João estava morto, comportamento considerado inadequado em situações de suposta legítima defesa.

Buscando celeridade após o retorno do inquérito ao Ministério Público, os Pinto querem que a conclusão seja definitiva diante da angústia que vivem por toda injustiça cometida contra o patriarca.

“Estamos sabendo que o inquérito da morte do nosso pai esta nas mãos no MP. Nossa família esta bastante esperançosa pois ja fazem quase dois anos e ainda não temos respostas. Só   queremos que a justiça seja feita. Nosso pai sempre foi uma pessoa honesta, trabalhadora e respeitada, sempre esteve envolvido com as questões públicas, tentando ajudar e contribuir como cidadão”, acrescentou Gysela.

“Contávamos com o apoio e a proteção mas infelizmente ficamos reféns da omissão. Falharam em proteger nosso direito de propriedade e falharam em proteger o direito à vida do meu pai, tendo ele perdido sua vida por próprios agentes estatais”, completou.

Ao Olhar Jurídico, o promotor Rinaldo Segundo, que é o responsável pelo caso no Ministério Público, explicou que o órgão segue diligente para apurar as lacunas ainda abertas, incluindo informações da corregedoria em relação aos policiais envolvidos, uma vez que Jeovânio foi acompanhado de outros agentes na ação, bem como dados complementares levantados pela família.

Referente à urgência de eventual oferecimento de denúncia ou arquivamento definitivo, Segundo confirmou que isso somente será resolvido após a recepção e análise de todos os elementos novos e provas adicionais que estão surgindo, necessários para formar alguma convicção.

O promotor ainda expressou sua preocupação com a execução de João Pinto, avaliando que Jeovânio e os agentes da Polícia Civil, que não é ostensiva, agiram em uma diligência motivada por um interesse particular, descaracterizados e à paisana, o que culminou na morte da vítima. Ele ressaltou que o foco da investigação é o crime contra João Pinto, e não o conflito fundiário maior na região, e promete que a decisão conclusiva será informada à imprensa.

“Mas então a gente precisa dessas informações derradeiras que são da família e da Polícia Civil, que eu já adiantei que é essa questão da corregedoria para formarmos a nossa convicção. O que eu posso dizer é o seguinte: vejo com preocupação esse caso, e essa é a razão da gente estar pedindo diligências complementares, porque a polícia é uma instituição republicana, ela não é do promotor, ela não é do policial, ela não é do governador, ela não é do deputado, ela é da sociedade, ela deve servir à república”, disse Rinaldo.

“Eu vejo com bastante preocupação o que aconteceu no caso do Sr. João Pinto, em que uma pessoa recebeu uma ligação dizendo que o seu cunhado não estaria sendo ameaçado, ele pegou policiais, que não tem atribuição de polícia extensiva, porque eram policiais civis, levou para essa diligência, e acabou gerando essa morte em um contexto em que já existia um conflito fundiário que todos nós sabemos”, completou.

O caso começou após uma denúncia feita por Elmar Soares Inácio, cunhado de Jeovânio, que afirmou ter sido ameaçado com uma arma de fogo por João Antônio Pinto nas proximidades da sua propriedade rural. Elmar fotografou a placa do veículo do idoso e enviou a imagem ao policial, que foi até o local acompanhado de outros agentes da Delegacia de Estelionato, em viaturas descaracterizadas.

Em depoimento, Jeovânio declarou que foi até a região para verificar a denúncia e que, ao se aproximar da chácara, foi autorizado por seguranças a entrar – fato contestado pelos Pinto. Ele afirmou ter atirado somente após João supostamente sacar e manusear uma arma em sua direção. Após o disparo, segundo o policial, a vítima caiu e teve a arma afastada. Ele deixou o local alegando que precisava buscar sinal de telefone e que não se sentia bem. Não voltou mais.

Para a advogada Gabriela Zaque, a versão apresentada contém lacunas. Ela pontua que os policiais chegaram à propriedade armados e que renderam os seguranças, impedindo-os de avisar João sobre a presença da equipe — procedimento que, segundo ela, contrariava a rotina de segurança da chácara, conforme confirmado pela filha de João.

Zaque acrescenta que os seguranças foram revistados, tiveram os veículos vasculhados e foram orientados a não se comunicar. Após isso, os policiais seguiram até o portão principal, onde renderam o caseiro Dirley, única testemunha presente no momento da abordagem. O trabalhador foi obrigado a se deitar e permanecer imobilizado por mais de 40 minutos, enquanto João era alvejado.

Gysela Pinto também contesta o relato do policial. Segundo ela, a área possui boa cobertura de telefonia, o que desmente o argumento de que Jeovânio teria deixado o local por falta de sinal. “Um policial treinado não poderia se ausentar da cena de um disparo fatal. É inexplicável o procedimento adotado, desde a entrada não autorizada até a saída imediata após o tiro”, disse.

A propriedade rural de João é alvo de disputas judiciais e tentativas de invasão, motivo pelo qual a família mantinha vigilância constante e controle de acesso. O local abrigava maquinário, uma pequena oficina e um avião de uso pessoal do idoso, que realizava voos para o Pantanal em épocas de cheia.

A família também questiona o laudo das câmeras de segurança, segundo o qual o sistema não gravava imagens desde janeiro de 2022. Os filhos de João afirmam que os equipamentos estavam ativos e pedem nova perícia no material apreendido pela Politec.

O depoimento do cunhado do policial, autor da denúncia inicial, também é contestado. A defesa da família solicita que o Ministério Público reavalie as provas e adote novas medidas investigativas, especialmente quanto às contradições nos relatos e aos dados de rastreamento dos veículos usados na operação.

O inquérito foi concluído em novembro de 2024 pelo delegado Marlon Conceição Luz, que acatou a versão de Jeovânio e concluiu pela legítima defesa, deixando de indiciá-lo. O delegado também sugeriu o arquivamento do caso.

O caseiro Dirley, porém, declarou em depoimento que não viu João sacar a arma, apenas se abaixar ao notar a aproximação dos policiais.

Durante a investigação, foram realizadas buscas domiciliares, quebras de sigilo e análise dos celulares de Jeovânio e de seu cunhado, sem indícios de premeditação. Mesmo assim, segundo a advogada Zaque, “pontas soltas permanecem” e devem ser reexaminadas.

Com a conclusão do inquérito, o delegado encaminhou o caso ao Ministério Público Estadual, com sugestão de arquivamento. Porém, o órgão ministerial não aceitou e, no começo deste ano, mandou o caso de volta à delegacia requisitando novas diligências, as quais estão em andamento. A família segue aguardando desde então.
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