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Sexta-feira, 24 de setembro de 2021

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ENTREVISTA DA SEMANA

Defensor de Taques, Marrafon prega “nova política” e não vê contradição em aliança com "tradicional" PSDB

Foto: Rogerio Florentino/Olhar Direto

Defensor de Taques, Marrafon prega “nova política” e não vê contradição em aliança com
Ex-secretário de Estado de Educação, o pré-candidato a deputado federal Marco Marrafon (PPS) entra na disputa eleitoral pela primeira vez este ano. Ele deixou o cargo no Governo no dia 06 de abril, data limite para a descompatibilização, e vem sustentando a base do governador Pedro Taques (PSDB) desde então. Defensor de uma nova política e integrante de um movimento que prega “renovação”, Marrafon garante que não há contradição em sua aliança com o PSDB, um dos partidos mais tradicionais do país.

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“Esse é um momento de transição, nós não temos como simplesmente ignorar as condições históricas de cada partido. Até porque a renovação precisa construir esse diálogo com a sociedade para poder fazer a transformação. E não vai ser de cima para baixo, não vai ser de um dia para o outro”, justificou, em entrevista exclusiva ao Olhar Direto.

Marrafon iniciou na vida pública recentemente, mas já provocou alterações consideráveis no cenário político do Estado. Sua filiação ao PPS, por exemplo, foi marcada pela saída do então presidente da sigla, o ex-prefeito de Rondonópolis Percival Muniz, e alguns aliados.

À época, em meio à polêmica causada por sua indicação à presidência do PPS, feita pela executiva nacional do partido, Marrafon garantiu que a partir daquele momento a legenda iria “renascer” em Mato Grosso.

Confira a íntegra da entrevista com o pré-candidato, realizada no dia 16 de julho:

OD – Você é considerado uma “cara nova” na política e seu nome surge justamente em um momento em que a renovação é uma das principais pautas debatidas. A tua campanha deve ser feita sobre quais bandeiras, além desta, obviamente?

Marrafon - Nosso foco nessa primeira etapa é justamente levar a bandeira da renovação política, uma renovação focada na educação, no nosso caso específico, para a construção de uma agenda, de propostas. Nós estamos em um momento de escutar as pessoas, de formar redes de cidadãos ativos. A nova política já se difere nesse momento, porque se você começa uma campanha de um jeito tradicional, fatalmente, se não se muda agora, não se muda lá na frente. É cada vez mais necessário que os cidadãos tomem as rédeas do processo e comecem a perceber que campanhas muito caras, campanhas bilionárias, têm um preço e que são os próprios cidadãos que pagam esse preço depois. A gente quer o engajamento, quer que as pessoas construam junto. A gente quer mais diálogo e menos discurso. Eu participo do Movimento Agora, que é um movimento que tem construído aí um momento de tolerância, um discurso bastante forte de fortalecimento da democracia brasileira. Quando a gente fez a escolha pelo PPS e pelo Movimento Agora, havia justamente a ideia de fazer um discurso de equilíbrio, que tivesse uma energia positiva e que se evitasse radicalismos tanto de esquerda quanto de direita. Isso implica, não querendo fulanizar o debate, que nós não vamos aceitar nenhuma forma de política extremista, seja de um lado ou de outro.

OD – Mas você faz parte de um grupo - do governador Pedro Taques (PSDB) - que vai dar palanque para o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), considerado um dos políticos mais radicais do país. Isso não soa incoerente?

Marrafon - O governador tem que cuidar da campanha majoritária, conversas nesse sentido são muito legitimas. Agora, enquanto presidente estadual do PPS, eu posso lhe dizer que não apoiamos o Bolsonaro. O indicativo do PPS é apoiar o candidato que vier pelo PSDB. É normal que em coligações estaduais se juntem vários presidenciáveis, isso me parece comum. A própria candidatura do Pedro, em 2014, teve mais de um palanque. Mas é importante deixar claro quais são as bandeiras que nosso partido tem.

OD – Ainda nesse sentido, você defende uma pauta de renovação, participa de movimentos que pregam o fim da “velha política”. Mas, ao mesmo tempo, está coligado com o PSDB, um dos partidos mais tradicionais do Brasil. Como explicar isso ao eleitor?

Marrafon - Esse é um momento de transição, nós não temos como simplesmente ignorar as condições históricas de cada partido. Até porque a renovação precisa construir esse diálogo com a sociedade para poder fazer a transformação. E não vai ser de cima para baixo, não vai ser de um dia para o outro. Mas é importante dizer que o que nós enxergamos é justamente isso, que a historia do Brasil focou muito no Executivo, e essa desvalorização do Legislativo tem levado a esse quadro de crise que a gente vive. Hoje nós pensamos que a renovação tem que começar pelo lugar certo, que é o Parlamento. Nós entendemos que o governador Pedro Taques já fez profundas transformações na política de Mato Grosso, com a escolha de um secretariado mais técnico, com um numero de servidores em que 70% dos comissionados são servidores de carreira, ou seja, mostra que não tem mais aquele cabide de empregos, há critérios técnicos de gestão. Dentro de tudo isso nós não temos duvidas que o governador Pedro Taques é o candidato que mais se aproxima da renovação.

OD – Você disse que acredita que a renovação deve começar no Parlamento, justamente o lugar para onde está tentando ir. Quais mudanças acha que devem ocorrer por lá?

Marrafon - A grande questão, tanto na Assembleia Legislativa quanto no Congresso Nacional, é justamente que, historicamente, a população não entendeu ainda a importância do Parlamento. Parlamento é acima de tudo um órgão de controle, de elaboração das leis, para que se realize de melhor maneira as políticas públicas. Então, quem lá estiver tem que estar acima de interesses individuais. A situação é muito grave, não só em Mato Grosso, mas no Brasil inteiro, no sentido da ausência de legitimidade do Parlamento. A democracia brasileira está em crise porque há um consenso geral de que ao invés de pensar em pautas republicanas e atender os interesses da sociedade, os parlamentares têm buscado seus próprios interesses. Um exemplo muito claro aconteceu recentemente: quando você pega uma ‘fôrma’ que devido à alta corrupção, muitos têm dificuldade de captação licita para a campanha, as pessoas não querem doar porque tem medo. Isso é uma reação das Instituições. Depois você pega uma campanha curta e os parlamentares federais fazem quase que um conluio para poder criar um ‘super fundo’ partidário, isso praticamente mata o movimento de renovação. É uma campanha curta, então não da muito tempo de a pessoa ser conhecida. E por fim, um monte de recursos partidários que chega a quase R$ 3 milhões nas mãos dos velhos coronéis de Brasília. O grave dessa história toda é que assim o Parlamento se afasta da sociedade e esse abismo pode gerar um quadro muito ruim de crise na democracia. Aquele sentimento de 2013 não morreu, a greve dos caminhoneiros ganhou a dimensão que ganhou porque a população extravasou. E quando o Parlamento se une para ir contra o que a população quer, que é a renovação política, aí nós temos um grave quadro de crise da democracia. Eu achei que não iria viver para ver pessoas de bem ajoelhando em frente a um quartel pedindo a volta da intervenção militar. Mas isso não quer dizer que são más pessoas, quer dizer que eles não têm mais esperança num outro futuro. E esse movimento tende a se agravar na próxima legislatura, porque o Congresso tende a se tornar um dos piores do Brasil, esse que vai ser eleito. E isso pode significar uma ruptura institucional muito séria. Já são vários analistas que dizem de maneira muito clara que se não houver rum grande consenso nacional, de reação aos radicais, vai se abrir no Brasil uma grande crise. É hora das pessoas se unirem e buscar mais democracia e oxigenar o sistema.

OD – E fora do Parlamento, qual é o tipo de renovação que você defende?

Marrafon - Um Estado mais leve, um Brasil mais simples, mais sustentável. Fortalecer a democracia numa leitura que chamamos de centro-avante, que significa entender a importância de um Estado eficaz, mas que não seja inchado. O Estado tem que atender as pautas públicas. Aquilo que é publico não cabe privatização, como por exemplo, educação, saúde e segurança pública. No entanto, nós sabemos que a gente vive num regime capitalista, então nós defendemos a livre iniciativa e os direitos individuais. Hoje o discurso fica muito atrelado a direitos sociais, ou então muito privatistas. Então, a gente busca fazer essa conciliação entre iniciativa privada, direito à propriedade, livre iniciativa, com a realização dos direitos sociais, que é aquilo que promete a Constituição da República.

OD – Aproveitando esse gancho do que você acabou de dizer, de que “aquilo que é público não cabe privatização”, por que você defendeu, enquanto secretário de Educação, a concessão de alguns serviços para a iniciativa privada? Esse assunto gerou inclusive greve de alunos, ocupações de escolas do Estado na época.

Marrafon - A educação enquanto atividade fim é publica e tem que permanecer assim, porque ela precisa atender a população que mais precisa. Ela é o melhor mecanismo de inclusão social, então isso não se poder perder de vista e nós defendemos com muita força, tanto que fizemos o concurso público, com o maior número de vagas e o chamamento mais rápido da história. Mas quando você pensa na parte estrutural das escolas, aí você tem que buscar um modelo que garanta uma escola bonita, uma escola pintada, com condições para o profissional da educação, para os estudantes. E era justamente sobre isso que versava aquele projeto de PPP [parceria público-privada] que a gente apresentou. Era um projeto que buscava não alterar o regime juridico dos profissionais, não alterar o regime jurídico da gestão escolar. Hoje quando você constrói uma escola você contrata a iniciativa privada, a transferência ficaria na parte da manutenção, para que o processo fosse mais rápido e mais moderno. A busca daquele projeto foi apresentado, mas como não houve condições para avançar nós fizemos um acordo e não avançou. Isso faz parte da democracia, não tem erro nenhum. Era justamente buscar meios mais modernos para que a gente pudesse garantir a estrutura e a manutenção adequada das escolas, não feria em nenhum momento o ensino público, gratuito e de qualidade.

OD – Esses quase dois anos à frente da Seduc te influenciaram a tomar a decisão de entrar para a política? O que você traz de experiência desse período?

Marrafon - Sem duvida alguma foi o maior desafio da minha vida. Quando o governador disse ‘Marrafon, assuma a Secretaria. Eu preciso que você faça a reestruturação da Secretaria para que todos os processos de combate a corrupção gerem resultados’. Então, eu precisava cumprir essas metas. 2016 foi um ano de olhar para dentro, de planejamento, de organização. Fizemos um núcleo de compliance, de integridade, de prevenção e combate à corrupção dentro da Secretaria. Esse núcleo gerou resultados muito positivos, inclusive foi selecionado numa obra coletiva de boas práticas de gestão no Itaú Social. Nós nos organizamos para que tivéssemos um orçamento que pudesse gerar bons resultados. Conseguimos fazer os acordos necessários durante a greve, em que o ambiente era muito difícil, porque havia um escândalo de corrupção muito recente dentro da Seduc, era preciso recuperar a auto-estima do pessoal. Nós chegamos a ter 22 escolas ocupadas e a gente conseguiu, conversando com os estudantes, fazer a desocupação de cada uma delas. Enquanto outros estados recorreram a policia, nós fomos dentro da escola, levamos os estudantes para dentro da Seduc e conseguimos superar todos esses quadros. E entregamos muito em termos de obras, foram 23 escolas novas inauguradas durante 1 ano e 10 meses, 109 postos de transformação – que são escolas que não tinham ar-condicionado porque não tinham energia elétrica suficiente. Então se instala o posto para poder instalar ar-condicionado. Programas como o da reestruturação do mobiliário escolar, em que nós reformamos e até construímos refeitórios com madeira apreendida. Fizemos o programa das escolas integrais. A minha gestão assumiu com quatro escolas integrais e no primeiro ano foi para 14, além da arena da educação. Depois de um ano nós aumentamos para 40 escolas integrais. O Avalia Mato Grosso, que foi um sistema de avaliação que nós criamos e que foi super bem elogiado no Brasil inteiro, em que a gente chama a rede para se auto conhecer. O programa Muxirum da Alfabetização já alfabetizou mais de 4 mil pessoas, também foi na minha gestão. Nós herdamos a Secretaria com mais de 60 obras paradas e demos uma solução para todas elas. Algumas a solução não se completou ainda, porque exigem pareceres jurídicos.

OD – Você acredita, assim como defende o governador Pedro Taques, que deu para virar a chave na Educação?

Marrafon - Tenho certeza que sim. A gente estabeleceu um novo olhar sobre o processo de ensino-aprendizagem, buscando resultados. A gente saiu de um momento de extrema crise na educação de Mato Grosso e hoje a gente vê que está avançando. Isso não quer dizer que foi feito tudo, mas que o processo que nós estamos caminhando vai nos levar a uma qualidade inevitável do ensino. O governador Pedro Taques zelou por isso. A pré-candidatura a federal surge muito de uma necessidade de levar ao Congresso pessoas preparadas para fazer os debates que o Brasil precisa. Quando você vê que muitas obras estão paradas por conta da excessiva burocracia, é preciso de pessoas capazes de debater essa reforma que os estados e municípios precisam. Eu tive a felicidade de ser convidado em 2018 para a Comissão de Especialistas do Pacto Federativo, em que a gente pôde aprender e debater. Se a gente melhora o Pacto Federativo, a gente melhora o nível de recursos. Especialmente agora na Secretaria, aprendendo as dificuldades que a maquina pública impõe para fazer uma boa gestão me permite debater com muito mais propriedade. A minha carreira originária era de professor, mas uma coisa é você dar aula, outra coisa é você entender como funciona o financiamento da educação. Outra pauta que eu entendo fundamental é tornar o grande financiador da educação, o Fundeb, em algo permanente. Ele tem prazo de validade até 2020 e as propostas para torná-lo permanente não passaram no Congresso. Então, precisa de gente capacitada para debater esse assunto. Tem que enfrentar essas pautas e defender a educação com unhas e dentes. E o meu currículo, o meu histórico, são o passaporte para demonstrar que eu tenho condições de fazer esse debate.

OD – No início da nossa entrevista você disse que esse pode ser um dos piores Parlamentos já eleito. Você está pessimista com relação às eleições?

Marrafon - Isso vai depender da consciência e da mobilização das pessoas. Nós sabemos que a velha política ainda é muito forte, nós estamos em um processo ainda de transição. Haverá um universo quase insuportável de fake news, de mentiras, de denúncias descabidas. E a velha política vai focar muito em desconstruir as pessoas que querem fazer o novo, a diferença. Aí vai depender de cada eleitor fazer uma reflexão, buscar o histórico, buscar o que apresentou, verificar o que é verdade e aí sim nós temos chances. Eu sou esperançoso, sou otimista de que a gente vai sair fortalecido desse processo. Mas não vai ser sem dor, não vai ser sem lagrimas e sem muito trabalho. Nós estamos contando com esse espírito que está na população agora de que é preciso definir o futuro do Brasil.

OD – Mudando um pouco de assunto, sua filiação ao PPS gerou uma grande polêmica na época. O ex-presidente do partido, inclusive, deixou a sigla muito descontente. O que de fato aconteceu?

Marrafon - É natural, todo processo de reconstrução passa antes por resistências. É normal que as pessoas queiram estar onde estavam. O que aconteceu foi que o PPS num âmbito nacional se abriu aos movimentos de renovação e os movimentos, como o Agora que eu participo, começaram a indicar novos quadros. Foi quando pessoas como o ex-ministro Marcelo Calero, que denunciou o Geddel, veio falar comigo. Isso foi conversado de maneira muito serena com o presidente anterior e ele não entendia que era o momento de participar disso. Então ele foi para o PDT, porque entendeu que queria seguir outro projeto. Não teve destituição porque já estavam vencidas as provisórias, já era o momento de escolher novos nomes e foi feita uma opção pela renovação.

OD – E para finalizar. A campanha deste ano promete ser uma das mais acirradas, aliás, já temos visto isso acontecer tanto do lado da oposição quanto do grupo ao qual você pertence. Como fazer a defesa do Governo, do qual o você fez parte, de eventuais ataques?

Marrafon - Vai ser encima dos resultados, que é impessoal e que mostra aquilo que nosso Governo fez de bom. Nós temos números maravilhosos. Às vezes parece um pouco de arrogância dizer ‘como nunca fizeram antes’? Mas vamos citar um programa: o Endereço Certo, feito pelo Desenvolve MT. Por que não regularizaram esses títulos? Onde esteve o Estado até então? A Catarata é um problema de estados tropicais e no governo Pedro Taques foram feitas mais de 65 mil cirurgias. É um numero muito robusto, mesmo em uma área em que ainda se tem tantas dificuldades a serem superadas como é o caso da Saúde. As escolas integrais elas geram um custo para o Estado, mas elas também geram vida para a sociedade. Por que não implantaram antes? São mudanças muito grandes de paradigmas.
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