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Mãe garante que aluno bombeiro tinha preparo físico e psicológico, mas morreu por excesso de Ledur

Da Redação - Fabiana Mendes

21 Abr 2019 - 11:31

Foto: Rogério Florentino Pereira/OD

Mãe garante que aluno bombeiro tinha preparo físico e psicológico, mas morreu por excesso de Ledur
A mãe do aluno Rodrigo Claro, morto em novembro de 2016, Jane Patrícia Claro, garantiu que o filho tinha preparo físico e psicológico para participar dos treinamentos e assim ingressar no Corpo de Bombeiros. Para ela, a morte foi por excesso da tenente Izadora Ledur de Souza Dechamps. 

A fala foi dada ao final da audiência realizada na última semana, na 11ª Vara Criminal Especializada da Justiça Militar. Na ocasião, a testemunha de defesa, coronel João Rainho Júnior, contou que os chamados ‘caldos’ são comuns durante a preparação. Além disto, pontuou que os alunos que estavam a ponto de se formar, deveriam estar aptos a enfrentar este tipo de situação.

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João Rainho Junior foi professor da tenente Ledur durante sua especialização e a primeira e única testemunha de defesa ouvida na segunda-feira. Ele atua no setor de instrução e explicou sobre os treinamentos na instituição, inclusive em piscinas e lagos.
 
A mãe do aluno bombeiro comentou a fala dada pela testemunha. Segundo ela, há algumas contradições, pois em outra audiência, o coronel Cavalcante teria dito que as atitudes de Ledur foram inadequadas. No entanto, João Rainho disse que aplica os métodos e os considerou "normais".

“O que te fato acontece? O que de fato pode ou não acontecer neste curso? Os próprios oficiais que se dizem preparados para esses eventos de preparação de alunos, eles mesmos se contradizem. A gente não sabe onde de fato está à verdade”, questiona.
 
Durante cerca de duas horas de depoimento, João Rainho relatou que o aluno precisa ter um psicológico e físico forte para suportar os treinamentos, e assim, se tornar um soldado. Segundo ele, caso não haja, o bombeiro pode morrer e matar a vítima. A intenção dos treinamentos, de acordo com o coronel, é deixar o aluno o mais próximo da realidade.
 
Jane Claro assevera que Rodrigo tinha preparo físico e psicológico para ser submetido às atividades. Porém, houve excesso por parte de Ledur. Consta nos autos que a tenente teria subido nas costas de Claro para afoga-lo. A prática conhecida como “caldo” é considera “normal” pela testemunha de defesa, que inclusive elogiou a desenvoltura da tenente em um curso aplicado por ele, em que a a acusada foi aluna. 

Defesa da tenente Ledur pede anulação de todas as provas e cita incompetência da Polícia Civil para investigar
 Ledur assistiu a audiência na tarde de segunda-feira (15). Foto: Rogério Florentino.

“O Rodrigo, por exemplo, tinha um psicológico totalmente tranquilo. Ele foi um menino que nunca deu alteração em momento algum, tanto familiar, tanto com amigos, na sociedade. Era um menino que tinha um porte físico muito bom, tinha preparação física muito boa. Aconteceu isso? Aconteceu. Só que foi por excesso dela, não por falta de preparo dele. Preparo físico ele tinha sim para aguentar até o fim. Se aconteceu, foi por excesso dela”, afirma.
 
O advogado de defesa, advogado Huendel Rolin, pediu anulação de todas as provas produzidas pela Polícia Civil. Durante a audiência, a defesa pontuou que a instituição não teria a competência para fazer a investigação e que o ideal seria que ela fosse feita através de um Inquérito Policial Militar (IPM). “Foi conduzido por uma autoridade totalmente incompetente. Isto vem acarretando em inúmeros prejuízos e violações das garantias constitucionais da denunciada”.

Defesa da tenente Ledur pede anulação de todas as provas e cita incompetência da Polícia Civil para investigar

O Juiz Marcos Faleiros explicou que, em outubro de 2017, a tortura passou a ser crime militar. Antes da vigência da lei, quando aconteceu a denúncia, não havia irregularidade por tramitar na Polícia Civil, sendo assim, na época era considerado crime comum. Por maioria (6 a 1), cinco juízes militares e o magistrado votaram pela rejeição da anulação. Uma juíza militar votou para que fosse anulada a investigação. 

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 Juiz Marcos Faleiros da 11ª Vara Criminal Especializada da Justiça Militar. 

“O IPM [Inquérito Policial Militar] que o Corpo de Bombeiros nos apresentou foi uma vergonha. O Conselho de Justificação que eles nos apresentaram dão total autonomia para os oficiais continuarem cometendo este tipo de crime. Eles deveriam acabar com essa prática. Mas como o coronel disse que ele também usa desta prática. Não é um caso isolado. Não é um instrutor apenas, tem outros instrutores. Se o comando quisesse, ele poderia acabar com essa prática, mas não é o caso. Eles não pretendem acabar com esse caso. E com certeza se continuar da forma que está, teremos a morte de outros Rodrigos, teremos outras famílias chorando”, lamentou.
 
A audiência terminou por volta das 18 horas. Três testemunhas foram ouvidas no dia seguinte (16). As demais audiência devem acontecer nos dias 22, 29 e 30 deste mês. Ledur deve ser ouvida no último dia, após às 13h30. 
 
“É desgastante. Não deixa de ser porque mexe muito com o psicológico da gente, relembrar o caso não é fácil. Como a gente sempre fala, o pior a gente já fez, que foi sepultar o corpo do nosso filho. A pior parte foi essa. Agora, suportar dias de julgamento, dias de oitivas, é complicado sim, porque a gente vai relembrar tudo, mas pelo pior nós já passamos”, lembra. 
 
O caso
 
Rodrigo Patrício Lima Claro, de 21 anos, ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e faleceu por volta de 1h40 do dia 16 de novembro de 2016. Ele teria sido dispensado no final do treinamento do curso dos bombeiros, após reclamar de dores na cabeça e exaustão. O jovem teria passado por sessões de afogamento e agressões por parte da tenente Izadora ledur.
 
O Corpo de Bombeiros informou que já no Batalhão ele teria se queixado das dores e foi levado para a policlínica em frente à instituição. Ali, sofreu duas convulsões e foi encaminhado em estado crítico ao Jardim Cuiabá, onde permaneceu internado em coma, mas acabou falecendo.

O corpo de Rodrigo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal, mas análise preliminares não apontaram a real causa da morte e por isso exames complementares foram realizados, de acordo com a perícia criminal.

13 comentários

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  • Bia
    21 Abr 2019 às 22:14

    Tenho pena dessa família. A dor é em dose dupla: a morte do filho jovem e saudável, e a impunidade da responsável. Quem absolve a ré num caso desse, não tem empatia alguma pelo próximo. Espero, de coração, que os pais e familiares desse jovem morto, encontrem força e disposição nessa luta. Os cidadãos sensatos daqui estão do seu lado, Jane!

  • Ggm
    21 Abr 2019 às 20:14

    Treinamento militar testam o máximo do guerreiro, e infelizmente pode acontecer baixa.

  • Maria
    21 Abr 2019 às 18:41

    Mãe, entregue a causa a DEUS ELE É PODEROSO. Nada nada que os homens façam será justo diante de uma perda de um filho . Sendo assim mãe entregue a DEUS tua causa e teu filho e segue com a misericórdia do Senhor que restaura edifica e fortalece para caminhar ate o seu dia de ir a morada eterna. Confia em Jesus entregasse por completo Ele vai te ajudar a caminhar. Que a Mãe Virgem Maria Santissima te acolha .

  • Elaine
    21 Abr 2019 às 18:35

    Quanta dor a desta família! Parece que a humanidade está involuindo à selvageria, ainda mais o Brasil, lamentável!

  • MT mais forte
    21 Abr 2019 às 16:31

    Infelizmente pela andar da carruagem vai inocentar a tenente e jogar a culpa no nobre sonhador aluno bombeiro Rodrigo. Esse é nosso pais... Já pensaram na família deste aluno o que vai sobrar no final de toda essa luta. Acredito que justiça Militar deve dar exemplo a qualquer tipo de excesso que culminar em morte ou trauma. Peço a todos que reflitam sobre o caso

  • Willian
    21 Abr 2019 às 15:51

    Para que tanta enrolação nesse julgamento se já sabemos o resultado? É óbvio, que militares, votarão a favor de militares. Infelizmente, a família terá que se contentar com a justiça divina, pois acredito que mesmo que recorrer, não dará em nada. Nesse país, para os militares, tortura é algo normal (pegar a cabeça de uma pessoa, afundar e ficar segurando, o famoso caldo), como disse um "professor militar" é algo normal.

  • José
    21 Abr 2019 às 15:22

    É preciso condenar os denunciados pelas mortes do Rodrigo Claro e do Soldado Abinoão Oliveira a cumprirem pena em regime fechado, inclusive a perda do cargo público. Devem, ainda, indenizar os familiares das vítimas. Chega de impunidade neste Estado!

  • Justo
    21 Abr 2019 às 14:41

    Infelizmente não....

  • ZE NINGUÉM
    21 Abr 2019 às 14:20

    NESSE PAIS, DE IMPUNIDADES, E QUANDO PUNE, DE ETERNOS RECURSOS, O UNICO QUE NAO PARTICIPA DESSE TEATRO DO SISTEMA, ESTA MORTO. E QUEM SOFRE, É A FAMÍLIA. NOJO DESSE PAIS, E SUAS LEIS, SEUS RITOS, ETC.

  • Raimundo
    21 Abr 2019 às 14:17

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