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Terça-feira, 18 de junho de 2019

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‘As críticas só mostram a ignorância sobre o processo de adoção no Brasil’, diz desembargador sobre repercussão de desfile

da Redação - Isabela Mercuri

22 Mai 2019 - 18:46

Foto: Gilberto Galdino

Desfile Apara 'Adoção na Passarela'

Desfile Apara 'Adoção na Passarela'

O desembargador Orlando Perri afirmou que as críticas dirigidas ao evento ‘Adoção na Passarela’, que aconteceu na noite da última terça-feira (21) no Pantanal Shopping, só mostram a ignorância da população em relação ao processo de adoção no Brasil. Segundo ele, o trabalho que a Ampara realiza é imprescindível, e a presidente da instituição sempre foi apaixonada pela causa.

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"As críticas que estão sendo feitas só mostram um profundo desconhecimento da legislação de adoção no Brasil. As pessoas falam como se o evento tivesse tentado vender as crianças, mas isso é absolutamente mentira. A legislação não permite que isso seja feito, e para adotar é necessário fazer um cadastro, e passar por um longo processo burocrático. O evento fei feito somente para chamar atenção para a causa”, disse.

Desembargador Orlando Perri (Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto)

Perri afirmou, ainda, que conhece o trabalho da Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA-MT), e sua presidente, Lindacir Rocha Bernardon. “Ela trabalhou comigo na corregedoria, inclusive fazendo um trabalho nessa área, e sempre foi apaixonada, uma trabalhadora voraz desta causa. Ela sempre desempenhou um trabalho social maravilhoso, e continua fazendo”.

Outra pessoa que saiu em defesa da Ampara foi o diretor da Escola Superior do Ministério Público de Mato Grosso (FESMP-MT) e promotor de Justiça, Joelson de Campos Maciel. "A questão deve ser debatida com muita responsabilidade. Criança não é mercadoria. O que se fez ali foi aumentar a visibilidade da criança e do adolescente num mundo que gira em torno dessa necessidade. Elas só existem se forem vistas através das lentes da tecnologia. É preciso usar também desses mecanismos em shopping, em facebook, em campanhas do futebol para que se aumente o apoio à causa da adoção. Quem sabe agora, com essa polêmica, as pessoas consigam discutir mais o problema; abram os corações e os lares para as crianças que precisam muito", ressaltou.

Lindacir Rocha Bernardon se manifestou na tarde desta quarta-feira (22), após ampla repercussão sobre o evento. Segundo ela, ele foi realizado com aval das crianças, da justiça, e que o objetivo era chamar a atenção para a causa. “Elas não são números e não devem ser escondidas”, afirmou.

O desfile aconteceu no Pantanal Shopping, e gerou repercussão nacional e internacional. Ele, no entanto, é apenas um, de uma ampla programação da ‘Semana da Adoção’. “Essa semana nós já realizamos algumas outras ações, como uma sessão solene na Câmara em homenagem à rede de apoio à adoção, hoje de manhã fizemos no Tribunal uma solenidade de premiação de um concurso de redação, temos amanhã um seminário na UFMT ‘Da gestação ao acolhimento familiar’, e realizamos essa ação também”, afirmou. “Com essa ação nós queríamos mostrar a diversidade da construção familiar através da adoção. Desfilaram famílias, pais e filhos por adoção, mostrando que a adoção de grupos de irmãos pode ser bem sucedida, a adoção de crianças deficientes, [pois] todos querem amor, todos querem vivenciar o afeto, e a gente quer mostrar isso através dessa ação. Junto com essas famílias, também  desfilaram adolescentes que se encontram disponíveis para adoção em Cuiabá e em Várzea Grande”.

Lindacir afirma, ainda, que as crianças foram convidadas e, para elas, o evento também contou como um momento de convivência social. “Para eles é muito importante sair da instituição, participar de momentos gostosos com famílias”, disse. Além disso,  garantiu que possuíam todas as autorizações legais para tal. “Temos autorização imediata dos juízes, apoio do poder judiciário, e a garantia dada pelo Plano Nacional de Convivência Familiar, uma proposta que se leva para favorecer esses encontros”.

A presidente ainda lembra que todas as crianças passam por acompanhamento psicológico e com assistentes sociais, e rebate a ideia de que o desfile poderia criar expectativas e decepções. “Expectativa gera na vida deles todos os dias. Cada pessoa que vai numa instituição de acolhimento e sai de lá, é um dia de frustração pra eles, porque eles esperam ser levados pelas famílias. Eu tenho minha filha caçula, ela veio pra mim com sete anos, e já tinha passado por três, quatro famílias, e tinha sido devolvida. E ela fala sempre, cada vez que chegava alguém e levava uma criança, um bebê, eu ficava pensando: será que um dia eu vou encontrar uma mãe e um pai? E sofria com isso. E chorava. Então nós temos que pensar nesse direito, e não em outro qualquer, e entendimentos que não correspondem com o verdadeiro direito”, lembra.

Atualmente, Mato Grosso tem 900 pessoas na fila de adoção, e 75 crianças aptas a serem adotadas. O motivo, segundo Lindacir, está no perfil delas e também na falta de informação. “Primeiro é em razão do perfil, segundo em razão dessas crianças serem consideradas “inadotáveis”. O que nós da Ampara discordamos, e a Comissão de Infância e Juventude também discorda, porque na verdade a sociedade desconhece a existência dessas crianças, tanto que temos mudado esse perfil. Hoje estamos acompanhando famílias que adotaram adolescentes de 14, 15 anos. Ontem desfilou uma família com quatro filhos adotivos e já em aproximação sucessiva com uma menina de 16 anos. Porque estamos dando visibilidade”, garante.

“Temos que ver que não são números, e que elas não devem ser escondidas. São pessoas que tem sentimentos, que querem afeto. São pessoas que à noite acordam com pesadelo e querem um abraço de mãe, e não tem esse atendimento individualizado. Nós convidamos a todos pra que conheçam o trabalho da Ampara, que venham participar, porque trabalhamos só com voluntários”, completa.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MT) também se manifestou por meio de nota, afirmando que as crianças que participaram, desfilaram com seus padrinhos ou pais adotivos, e que a ideia do evento não era apresentá-las às famílias, mas sim chamar atenção para a causa.

A OAB afirmou, ainda, que nenhuma criança foi obrigada a participar do evento. “A falta de interessados na chamada “adoção tardia” faz com que seja urgente a adoção de medidas como a Semana da Adoção, que tornam público esse problema social. Conforme o Relatório de Dados Estatísticos do Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 8,7 mil crianças e adolescentes aguardam por uma família”, explica a nota.

A presidente da Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da OAB, e da Comissão Nacional da Infância, Tatiane de Barros Ramalho, afirmou ao Olhar Direto que a última edição do evento, inclusive, terminou com duas adoções tardias, de adolescentes de 14 e 15 anos. “Eu reitero isso em qualquer lugar, pra qualquer pessoa. A OAB vai apoiar esse evento, a CIJ vai apoiar esse evento, porque já tivemos frutos positivos no evento passado. Tivemos duas adoções tardias, adoções que as crianças e adolescentes com 14, 15 anos, já não têm expectativas nenhumas de serem adotados. A sociedade tem que entender que quando chega aos 18 anos, é rua. Eles não têm pra onde ir. E a sociedade agora está toda machucada porque mostraram as crianças e adolescentes. Sim, elas existem! Elas estão lá. Acontece quando enquanto estão trancadas está tudo ótimo, então? Quando estão trancadas, sem expectativa nenhuma?”, lamenta.

O Pantanal Shopping, que sediou o evento, também se posicionou, afirmando que repudia a objetificação de crianças e adolescentes, e que o intuito era contribuir com a promoção e conscientização sobre adoção.

Ampara

A Ampara é uma associação sem fins lucrativos que foi criada oficialmente em 2009, inicialmente com o objetivo de preparar os pretendentes à adoção. “A lei 12.010 passou a exigir a preparação, em que se deveria se discutir os aspectos jurídicos e sociais da adoção, e nós como pais e filhos por adoção nos unimos e começamos a fazer essa preparação”, conta Lindacir.

Em seguida à criação da Associação, o Tribunal de Justiça os procurou e fez uma parceria pra que a Ampara fizéssemos essa preparação. “Hoje a Ampara tem várias ações, como o pré-natal da adoção, que é essa preparação. Nós realizamos uma média de cinco formações por ano, com a participação de 60 famílias a cada grupo. Fazemos também o acompanhamento das famílias adotivas através de um encontro mensal com o objetivo de fortalecer os vínculos, principalmente quando se trata de uma adoção especial. Fazemos um trabalho na escola pra desmistificar esses entendimentos equivocados sobre adoção, e trazer uma sociedade com uma cultura diferenciada da adoção, sem mitos e sem preconceitos, e varias outras ações, e dentre elas nós temos a Semana da Adoção, que é uma lei municipal”, finaliza.
 
Leia a íntegra das notas:

NOTA DE ESCLARECIMENTO

 
Diante da repercussão do evento “Adoção na Passarela”, realizado pela Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (AMPARA) e pela Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT), as instituições vêm a público esclarecer que:

- Nunca foi o objetivo do evento – parte integrante de uma série de outros que compõem a “Semana da Adoção” – apresentar as crianças e adolescentes a famílias para a concretização da adoção. A ideia da ação visa promover a convivência social e mostrar a diversidade da construção familiar por meio da adoção com a participação das famílias adotivas;

- Nenhuma criança ou adolescente foi obrigado a participar do evento e todos eles expressaram aos organizadores alegria com a possibilidade de participarem de um momento como esse. A ação deu a eles a oportunidade de, em um mundo que os trata como se invisíveis fossem, poderem integrar uma convivência social, diretriz do Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária. Esse evento, inclusive, ocorre pela segunda vez;

- Crianças e adolescentes que desfilaram o fizeram na companhia de seus “padrinhos” ou com seus pais adotivos. A realização do evento ocorreu sob absoluta autorização judicial conferida pelas varas da Infância e Juventude de Cuiabá e Várzea Grande, bem como o apoio do Poder Judiciário.

- A OAB-MT e a Ampara repudiam qualquer tipo de distorção do evento associando-o a períodos sombrios de nossa história e reitera que em nenhum momento houve a exposição de crianças e adolescentes;

- Vale destacar que o desfile foi apenas uma das ações da “Semana da Adoção”. Ao longo dos dias do evento foram realizados também palestras, seminários e recreação para as crianças;

- A falta de interessados na chamada “adoção tardia” faz com que seja urgente a adoção de medidas como a Semana da Adoção, que tornam público esse problema social. Conforme o Relatório de Dados Estatísticos do Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 8,7 mil crianças e adolescentes aguardam por uma família.

- Na edição anterior do evento, realizado em 2016, dois adolescentes, cujo perfil está fora dos parâmetros de preferência da fila de interessados, foram adotados graças ao trabalho realizado, que deu visibilidade à questão. A iniciativa tem sido tão exitosa na forma como aborda o problema que outros Estados realizaram eventos semelhantes, como “Esperando por você” (ES), “Adote um Pequeno Torcedor” (PE) e “Adote um Pequeno Campeão” (MG);

- Por fim, a Ampara e a OAB-MT, realizadoras do evento, agradecem a disposição de todos os demais órgãos e entidades apoiadores, dentre eles o Tribunal de Justiça de Mato Grosso e o Pantanal Shopping, por entenderem a grandeza de sua finalidade e abraçarem, de forma voluntária, a causa da adoção no Estado. Também conclamam a sociedade em geral para uma discussão séria e efetiva sobre o tema para que mais estratégias possam ser adotadas em prol do direito de possibilitar o acolhimento familiar a essas crianças e esses adolescentes
.
 
NOTA A IMPRENSA

O Pantanal Shopping informa que repudia a objetificação de crianças e adolescentes e esclarece que o único intuito em sediar a ação foi contribuir com a promoção e conscientização sobre adoção e os direitos da criança e adolescente com palestras e seminários conduzidos por órgãos competentes que possuem legitimidade no assunto. O shopping afirma que a ação foi promovida pela Associação Mato Grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara) em parceria com Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da OAB-MT e reitera que o evento contou ainda com o apoio do Ministério Público do Estado do Mato Grosso, Poder Judiciário do Estado do MT, Governo Estadual do MT, Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania, Sindicato dos Oficiais de Justiça, Associação Nacional do Grupo de Apoio à Adoção e Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, além do Tribunal de Justiça do Mato Grosso.

52 comentários

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  • Marley
    24 Mai 2019 às 12:29

    Fiquei perplexa ao ver como as pessoas distorceram os fatos e a real intenção do Evento que não foi outro de chamar toda a sociedade a saírem de suas vidas confortáveis e sensibilizarem com a situação das crianças que precisam de um lar, de uma família que as acolham e as amam.

  • Nádia
    24 Mai 2019 às 11:19

    Que preguiça! Judiciário, OAB e demais órgão envolvidos lançando uma cortina de fumaça sobre os fatos, na medida que se socorrem da relevância da causa e nobreza das intenções para justificar o erro grosseiro de avaliação. Melhor seria um mea culpa, pois autocrítica e humildade não faz mal prá ninguém.

  • Gilberto Arruda
    23 Mai 2019 às 16:07

    Concordo com Júlio César. Pode ter tido boas intenções. Mas de boas intenções o inferno está cheio. Coitada dessas crianças Humilhadas e expostas. Quem poderá defendê las?

  • Julio Cezar de Oliveira Gomes
    23 Mai 2019 às 15:31

    A intenção pode ter sido a melhor do mundo. Mas a forma, é preciso dizer, foi infeliz. Super expõe crianças e adolescentes, que após não serem adotadas acabam por colecionar mais um trauma, mais uma rejeição, mais um revés ou fracasso, embora a adoção não dependa delas, e sim de quem as avalia. Vamos pensar melhor, sociedade brasileira, e buscar formas menos constrangedoras de tentar auxiliar a estes frágeis e já tão sofridos seres humanos.

  • Raquel
    23 Mai 2019 às 15:23

    Não entendi por que meu comentário anterior foi vetado pois não ofendi ninguém. Mas repito que a vergonha quem deve ter são as pessoas que apoiaram e defendem este evento. Ninguém adota criança assim, tampouco a escolha deve ser feita a partir de uma desfile! As pessoas que dizem que é mimimi não merecem nem resposta por que esse é o típico comentários de quem não tem argumentos. Da mesma maneira, quem tenta justificar a ação pela nobreza e importância da causa, está equivocado pois os fins não justificam os meios. Está faltando aos organizadores autocrítica e humildade para reconhecerem que erraram feio no formato do evento.

  • walter
    23 Mai 2019 às 14:33

    Esse tipo de desfile só era visto nos tempos da escravidão. Assim como a avaliação racial que passam os cotistas de curso superior (uma bancada para julgar se um individuo é ou não de determinada raça) só era vista na alemanha nazista. Onde foi que o brasil errou para ter que passar por isso?

  • Vinicius Tenuta
    23 Mai 2019 às 14:06

    Cuiabá volta a ser chacota nacional...

  • Aninha Marques
    23 Mai 2019 às 14:04

    Primeiro: foi esdrúxula essa exposição das crianças. Segundo: declaração esdrúxula do desembargador. Terceiro: Cuiabá passa novamente vergonha no Brasil.

  • Alexandra
    23 Mai 2019 às 12:59

    Parabéns Desembargador Perri, são das mentes como a do senhor que esse bando de ignorantes do conhecimento precisam para aprender não julgar aquilo que desconhecem, concordo com o senhor em número, gênero e grau!

  • J. Carli
    23 Mai 2019 às 12:57

    Gostei do evento, vou querer comprar um casalzinho.

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