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Terça-feira, 14 de julho de 2020

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Avô de bebê que morreu de Covid-19, cacique revela falta de atendimento nas aldeias de Marãiwatsédé

Da Redação - Fabiana Mendes

26 Mai 2020 - 15:00

Foto: Reprodução

Avô de bebê que morreu de Covid-19, cacique revela falta de atendimento nas aldeias de Marãiwatsédé
Cacique geral da Terra Indígena Marãiwatsédé, Damião Paridzané, do povo Xavante, já perdeu seis netos para doenças como diarreia e desnutrição, e recentemente, um para a Covid-19. O bebê de oito meses faleceu no dia 11 de maio, em Água Boa (a 740 km de Cuiabá), mas o resultado do exame saiu somente no dia 18. Em entrevista ao site Amazônia Real, a liderança disse que falta atendimento de saúde nas aldeias de Marãiwatsédé. “Agora mesmo tem um monte de criança correndo, brincando resfriada na aldeia. E cadê os médicos? Cadê os medicamentos? A vacina… Não tem!”, criticou.

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Segundo informações do Ministério da Saúde, a Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena (EMSI) realizou o primeiro atendimento e, no dia 8 de maio, a criança apresentou sintomas respiratórios, sendo encaminhada para Unidade de Saúde do município de Bom Jesus do Araguaia dois dias depois. Diante do estado clínico, o paciente foi transferido para o Hospital Regional Paulo Alemão, no município de Água Boa, onde morreu.
 
O cacique Damião não acredita que seu neto tenha morrido pela Covid-19. “Isso foi uma gripe. É muito comum que as nossas crianças tenham isso nos meses de março e abril”, disse ele à reportagem.  O bebê morava com os pais, a irmã de um ano meio, os avós maternos e ao menos seis tias, todos numa mesma residência na aldeia, onde vivem mais de 600 pessoas.
 
O cacique Damião contou que os sintomas de resfriado no bebê surgiram no dia 8 de maio. “Estava tossindo, com febre, desnutrição e diarreia muito forte. Sua irmã, de um ano e meio, estava com sintomas parecidos, mas havia se curado”, relatou.
 
Mas antes de ser levado ao médico, o bebê foi tratado com medicamentos tradicionais da etnia. “A avó dele disse que ia tratar com medicamento natural. Isso é muito popular em nossa cultura, de tratar os doentes com remédio natural; tanto que o meu neto ficou bom por um tempo. Ele curou, mas logo depois adoeceu de novo com febre”, afirmou.
 
Damião contou que o pai da criança, um de seus filhos, não permitiu que ele fosse retirado da aldeia, em diferentes ocasiões. “Esse realmente foi um erro dele”, diz Damião. Após essa situação com o filho, o cacique disse que “eu autorizei que (o neto) fosse encaminhado para o hospital de Bom Jesus do Araguaia”.
 
“Meu neto foi medicado [no hospital regional]. Amanheceu [dia 11] bom e a mãe até deu comida para ele. Mas depois, a enfermeira disse que precisava levar ele para UTI e colocaram sonda nele. Nem perguntaram para os pais se era para colocar”, contou a liderança sobre o procedimento da internação da criança. 
 
Damião se disse indignado que o neto foi entubado, dando a entender que não foi informado que pacientes de Covid-19 precisam de respiradores com oxigênio. O bebê  morreu às 15h do dia 11 de maio. “Depois, quando já era de tarde, vieram dando a notícia que meu neto estava morto”, contou o avô.
 
“Senti vontade de invadir o hospital regional e guerrear sozinho até morrer, assim como meus ancestrais faziam. Mas hoje já não dá pra fazer isso, né? Tem que esperar a política, a boa vontade do homem branco… fazer o quê?”, disse o cacique quando soube da morte do neto de apenas oito meses.

O líder do território Marãiwatsédé destacou que o funeral do bebê foi realizado conforme a tradição Xavante – portanto, sem o lacre do caixão como prevê as normas de prevenção de contaminação do vírus adotadas pelo Ministério da Saúde.  
 
“Recebi o corpo dele só a noite, umas 19 horas. Abri o caixão pra ver a cara do meu neto e vi que tinha sangue seco no nariz e na boca dele. Fiquei muito chateado, pois a sonda eu acho que não precisava colocar. Falam que é para alimentar ou para a respiração, mas ele era muito pequeno pra isso”, lamentou o cacique. 
 
Conforme apuração do site Amazônia Real, o polo do Dsei Xavante na TI Marãiwatsédé haveria apenas quatro profissionais de saúde para atender mais de mil indígenas. O cacique relata a situação no atendimento.

“Eles falam que vão monitorar as aldeias, mas como, se não tem estrutura direito, se falta remédio e principalmente médico. O governo fala que está preocupado com o coronavírus nos indígenas, mas ninguém se preocupa com isso. E não é só em Marãiwatsédé esse descaso. A falta de saúde está em todo território indígena do Brasil”, disse o cacique Damião. 

O Ministério da Saúde, por meio do Distrito Sanitário Especial Indígena Xavante, subordinado à Secretaria Especial de Saúde Indígena, lamentou a morte do bebê, bem como a Fundação Nacional do Índio (Funai).

 
 

3 comentários

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  • Dr STF
    26 Mai 2020 às 19:18

    Cacique mala , juntamente com chefe da Funai e conluio com chefe do INCRA alugam pastos para fazendeiros da região .

  • Roberto rezende
    26 Mai 2020 às 16:47

    PEDE PRA ELE USAR PARTE DO DINHEIRO, DOS ARRENDAMENTO DOS PASTOS DA SUIÁ!!

  • Zeca
    26 Mai 2020 às 15:21

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