Olhar Direto

Notícias / Cidades

Professor desiste de dar aulas em escola militar após saber que precisaria tirar a barba e esconder tatuagens

Da Redação - Airton Marques

27 Jan 2021 - 15:43

Foto: Reprodução

Professor desiste de dar aulas em escola militar após saber que precisaria tirar a barba e esconder tatuagens
Professor de Educação Física, Gibran Freitas afirma ter sido constrangido ao tentar dar aulas na Escola Estadual São João Batista, em Barra do Garças (521 Km de Cuiabá). Em vídeo que circula nas redes sociais, relata que foi informado por um assessor pedagógico da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) que só poderia fechar sua carga horária na unidade de ensino, caso raspasse a barba, tirasse os brincos e usasse camisa de manga longa para esconder suas tatuagens. O educador acabou buscando outra escola para atuar.

Leia também:
Botelho não pretende retomar sessões presenciais e nem expediente normal na AL

Toda a mudança de seu estilo, coforme relato, deveria ocorrer pelo fato de a escola ter tido sua administração militarizada. A Escola Militar Tiradentes em Barra do Garças foi criada pelo governador Mauro Mendes (DEM) e passou a funcionar na unidade, que irá atender inicialmente 400 alunos da sexta série do ensino fundamental até o primeiro ano do ensino médio.

“Teria que mudar minha personalidade e me adequar a uma escola civil, que tem a gestão militarização. Não foi feito um edital a parte nessa escola, dizendo que ela funcionaria e seria regida pelas normas da Polícia Militar. Fui informado disso na frente de todos os colegas que estavam ali para a atribuição, após o assessor pedagógico entrar em contato com direção da unidade”, disse o professor.

Gibran questiona o fato de a escola não aceitar personalidades diversas e seguir padrões da Polícia Militar, mesmo sendo uma unidade civil. Nessa parceria com a PM, os professores são cedidos pela Seduc.

 “Fiz um concurso para ser professor, não para ser policial militar. Respeito a instituição da PM, porém esse espaço não é militar, não é regido pelas normas da Polícia Militar. É um espaço civil, onde se aprende a respeitar pessoas que optam por usar barba, tatuagem e brinco. Não permitem que a diversidade entre na escola. É preciso discutir isso e o propósito da escola, a partir do momento que ela é militarizada. Acabar com a personalidade e o direto a livre expressão? Que escola é essa?”, questionou.

Por meio de nota, o Sintep, que representa os servidores da educação, repudiou a postura da direção da escola. "Tal atitude desrespeita a dignidade humana e demonstra a intolerância que acomete a nossa sociedade. Intolerância esta, que está sendo propagada para dentro das nossas unidades escolares por meio da entrega da gestão das nossas escolas públicas para as forças de segurança (polícia militar, polícia rodoviária federal e Corpo de Bombeiros)". 

O sindicato ainda critica o processo de militarização das escolas estaduais. Diz que isso por meios truculentos, antidemocráticos, envolvendo a Seduc, prefeitos, vereadores e os comandos das polícias militar, Rodoviária Federal e Corpo de bombeiros.

Outro lado

Procurada pelo Olhar Direto, a assessoria da Seduc disse que a Pasta investiga o caso e irá se pronunciar assim que tiver informações sobre o fato.

 


Leia a nota na íntegra:

"O Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso repudia veementemente o atentado a dignidade humana e liberdade de Cátedra sofrida pelo Professor Efetivo de Educação Física da SEDUC-MT, sindicalizado, cidadão e dirigente Sindical do Sintep/MT Subsede de Barra do Garças, Gibran Dias Paes de Freitas, que, ao ser atribuído para trabalhar na Escola Militar Tiradentes, antiga Escola Estadual São João Batista, de Barra do Garças (a 520 km de Cuiabá) fora comunicado que só poderia exercer a atividade educacional se tivesse a barba e cabelos cortados. Além disso, recebeu a determinação para que fizesse uso permanente de camisa de mangas longas para esconder suas tatuagens e, foi informado também que deveria tirar o brinco que usa em uma das orelhas. 

Tal atitude desrespeita a dignidade humana e demonstra a intolerância que acomete a nossa sociedade. Intolerância esta, que está sendo propagada para dentro das nossas unidades escolares por meio da entrega da gestão das nossas escolas públicas para as forças de segurança (polícia militar, polícia rodoviária federal e Corpo de Bombeiros). 

Manifestamos o total repúdio à política de militarização de escolas públicas em Mato Grosso, capitaneada pelo Deputado Estadual Silvio Fávero (PSL), intensificada a partir de 2020. Um processo que ocorre por meios truculentos, antidemocráticos, envolvendo a secretaria de educação (Seduc), prefeitos, vereadores e os comandos das polícias militar, Rodoviária Federal e Corpo de bombeiros, para implantar nas escolas civis públicas a chamada “metodologia de ensino” dos colégios da Polícia Militar em favor de implementação das chamadas escolas cívico-militares.

Esse processo faz com que militares das diferentes polícias (Exército, Civil, Federal e Militar) e corpos de bombeiros, adentrem às escolas civis públicas, nas funções de diretores administrativo, pedagógico, além de monitores ou instrutores dos estudantes. Essa atuação reorganiza o trabalho pedagógico imprimindo práticas desenvolvidas nos quartéis, hierarquia, disciplina subserviente, ritos militares, uniformização e apagamento das subjetividades, obrigando que todos/as estudantes se portem da mesma forma, usem penteados e cortes de cabelos iguais e batam continência. 

As justificativas utilizadas pelos governos para implementar a militarização são comuns, destacando-se: a) “baixa qualidade educacional” oferecida nas escolas públicas e a necessidade de melhoria dos índices educacionais; b) combate à violência; c) valorização do discurso militar da disciplina, hierarquia, ordem, respeito e controle; d) criminalização da pobreza; e) desvalorização da escola pública e da gestão democrática.

A comparação pura e simples de resultados, sem considerar diversos fatores é desonesta e resvala, quase sempre, na falácia de responsabilizar os profissionais da educação ou os estudantes e suas famílias pelo “fracasso escolar”. Do mesmo modo é equivocado atribuir o bom desempenho dos genuínos colégios militares do Exército apenas ao ideário militarista desconsiderando as especiais condições dessa oferta educacional: custo por aluno maior, no mínimo quatro vezes o custo médio nacional da rede pública; maiores salários compatíveis com a formação dos profissionais da educação; seleção do público atendido (ingresso nas unidades passa por exames seletivos); oferta de educação integral; excelente infraestrutura, equipamentos, tecnologia, laboratórios.

O espírito conservador das corporações militares requer estudantes à sua imagem e semelhança, obedientes e que acatem ordens, sem permissão para expressar um pensamento diferente ou questionar. Nas escolas militarizadas as marcas identitárias são compreendidas como subversão e a condição ontológica de gênero, raça-etnia, classe social e território devem ser anuladas. É um ataque às subjetividades e ao pertencimento que se contrapõe à estética identitárias e visa o apagamento de sua força e filiação. Ataque legitimado por um discurso militarista equivocado de “disciplina, hierarquia, ordem, respeito e padronização”.

O processo de militarização está na contramão do direito conquistado e no disposto na legislação. A escola pública, fruto de muita luta dos trabalhadores e estudantes, é prevista nesses marcos legais como plural, democrática, pública, universal, laica, gratuita, de qualidade socialmente referenciada que reconhece e valoriza nossa diversidade. Ao entregar as escolas para as polícias - que não tem formação para educar - impõe-se o apagamento da identidade dos jovens, adolescentes e dos Educadores; criminaliza-se estudantes, comunidades e territórios empobrecidos; e, amordaçam-se as múltiplas vozes que constituem nosso povo e que denunciam, à plena voz, a injustiça social e a necessária positivação de direitos que exigimos.

Desse modo o Sintep-MT conclui manifestando-se radicalmente contrário à demonstração de intolerância, preconceito, ataque à dignidade humana e liberdade de cátedra justificada por dogmas e preceitos das escolas públicas militarizadas em Mato Grosso e solidariedade ao professor Gibran Dias Paes de Freitas, se colocando à disposição para que tal agressão à dignidade humana e de cátedra não fique impune. 

Assim como, reafirmamos a defesa intransigente do sindicato, pela escola pública como espaço universal do exercício democrático de diálogo, pautada por relações horizontais, organização livre dos estudantes, que acolhe e valoriza as marcas éticas, estéticas e identitárias de raça-etnia, cultura, território, gênero e sexualidade.

Cuiabá, 27 de janeiro de 2021.

Direção Estadual do Sintep/MT"

Comentários no Facebook

Sitevip Internet