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Segunda-feira, 19 de abril de 2021

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ESPECIAL MULHERES NA PANDEMIA

“Nos primeiros meses da pandemia já tivemos feminicídio, após dois anos sem registro”, conta delegada

Da Redação - Vinicius Mendes

08 Mar 2021 - 08:20

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

“Nos primeiros meses da pandemia já tivemos feminicídio, após dois anos sem registro”, conta delegada
A delegada Jozirlethe Magalhães Criveletto, titular da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, disse que a pandemia do novo coronavírus piorou a situação da violência doméstica. Apesar do número de registros de casos ter diminuído, o número de feminicídios aumentou, o que mostra que a violência ocorria, mas alguns casos só chegavam às autoridades no último estágio, quando ocorria a morte da mulher.
 
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Segundo a delegada, desde o mês de março de 2020, quando iniciaram as primeiras medidas de combate à Covid-19, o número de registros de violência doméstica em Cuiabá caiu. A Delegacia da Mulher nunca ficou fechada, no entanto, por causa das medidas restritivas a procura foi menor.
 
Outro motivo também foi o cárcere privado. Com o agressor passando mais tempo em casa com a vítima, existiram situações em que a mulher foi impedida de sair de casa. Também havia a possibilidade de registro online, mas a delegada Jozirlethe explicou que muitas das vítimas vivem em situação de maior vulnerabilidade social, com menos acesso à informação e tecnologia. Apesar de queda nos registros, a violência não diminuiu.
 
“Na verdade, nós tivemos uma diminuição de denúncias, de boletins de ocorrência registrados, mas gradativamente tivemos um aumento no número de morte de mulheres. E isso significa, para nós que trabalhamos com enfrentamento à violência, que na realidade isso estava acontecendo dentro dos lares, e esse ciclo de violência chegava até o último grau que é o feminicídio”.
 
De acordo com a delegada, Cuiabá já estava há dois anos sem registro de casos de feminicídios e após o início da pandemia, logo nos primeiros meses mortes começaram a ser registradas.
 
As denúncias que ocorreram foram principalmente feitas por mulheres de classes mais pobres. A delegada explicou que a questão da violência doméstica é diferente dos outros crimes, pois a vítima precisa de um acolhimento e de uma rede de amparo, e para mulheres em maior vulnerabilidade social o amparo do Estado é a única opção.
 
“Hoje a violência doméstica está em todas as classes sociais. Existem pessoas que tem outros meios, mas as mulheres em maior vulnerabilidade social necessitam mais das políticas públicas [...] muitas delas não têm opção, não tem emprego, então elas precisam destas políticas públicas. A atração que a delegacia exerce muitas vezes não é nem a questão da condenação do agressor, é que a mulher precisa de ajuda para retomar a vida dela sozinha”.
 
Jozirlethe disse que as mulheres com maior poder aquisitivo também sofrem violência doméstica, mas conseguem resolver o problema sem passar pela esfera criminal, buscam a Justiça por meios próprios. O principal desejo das vítimas, segundo a delegada, é se livrar da violência, não necessariamente a condenação do agressor.
 
“E isso reflete uma cultura da nossa sociedade, no sentido de que a mulher quer se livrar da violência. Ela não pensa no agressor da mesma forma que uma vítima pensa em um ladrão, ela pensa no agressor como o marido dela, como o companheiro, namorado, alguém muito próximo a ela. Então é muito difícil para ela entender esta questão de que esta pessoa seja condenada, porque a condenação soa como sofrimento, e muitas pensam ‘olha, eu não preciso que ele sofra, só preciso que me deixe em paz’, o pensamento dominante é esse”.
 
Com as novas medidas restritivas impostas pelo Governo do Estado, a delegada acredita que o número de casos de violência doméstica deve crescer.
 
“Tem o lado das medidas de segurança, que não tem o que fazer, é uma questão de saúde [...] mas quanto mais os agressores tiverem oportunidade de estar dentro do lar, é mais propício que aconteça a violência [...] E uma coisa que dizemos desde o início da pandemia, não é que os homens vão se tornar agressores, eles já são, já são relacionamentos abusivos, são pessoas que já tem um histórico de violência, então estar mais tempo com o agressor faz com que este ciclo de violência passe mais rápido, porque são muito mais momentos de tensão”.
 
A delegada afirmou que a Delegacia da Mulher vai continuar atendendo normalmente e as vítimas poderão contar com toda a rede de apoio, como Casa de Amparo, patrulha Maria da Penha da Polícia Militar, e também o Poder Judiciário, caso seja necessária uma medida protetiva.

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