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Domingo, 25 de julho de 2021

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Série especial de 30 anos

Áreas protegidas: ICV relata a luta que reergueu e transformou a organização em referência

Foto: Reprodução ICV

Áreas protegidas: ICV relata a luta que reergueu e transformou a organização em referência
O ano era 2004 quando o ex-diretor do ICV Laurent Micol se sentou numa mesa do escritório de Alta Floresta do Instituto Centro de Vida (ICV) com Walter Ariano. Os dois se olhavam, sem saber o que dizer.

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Sem saber, na realidade, o que fazer. Mais uma vez, o ICV passava por uma crise que trazia à tona a questão: seria a hora de fechar as portas?

O projeto que marcou o início da atuação do ICV no combate às queimadas, o programa Fogo: Emergência Crônica, acabara de ser cancelado com o ICV. Junto dele, extinguiam-se cerca de 80% das fontes de recursos da instituição.

A notícia fez com que Laurent dividisse as dores com Walter, hoje do administrativo da instituição e o responsável por iniciar a estruturação do setor.

“A gente pensou em fazer uma fusão com outra organização, parecia a única saída”, relembra Laurent.

Foram ambos conversar com Teodoro Irigaray, um dos fundadores do ICV e a quem relataram toda a situação.

“Ele olhou para nós e disse ‘não, o ICV ainda tem muito o que fazer. Arregacem as mangas e vamos em frente’. Aí não teve outro jeito, né?”, contou Laurent, que naquele momento também se lembrou da icônica mensagem no jornal que se apresentou a Sérgio na primeira crise da instituição, anos antes.

A solução para amenizar o impacto da péssima conjuntura financeira foi o fechamento do escritório em Cuiabá, cidade em que o ICV foi fundado. Foi mantido o de Alta Floresta, onde as ações haviam sido concentradas nos últimos anos.

A decisão resultou na mudança de Walter para Alta Floresta que, apesar do momento de crise institucional, uniu o útil ao agradável: buscava uma qualidade de vida maior do que a propiciada na capital do estado.

Mesmo após a reabertura do escritório de Cuiabá, anos depois, permaneceu no município interiorano onde hoje vive e trabalha no mesmo escritório onde o ICV pôs os pés no ano de 2000.

Todo restante, porém, foi demitido. Da equipe técnica, apenas um, que ficava em Juína, permaneceu. Foi para Alta Floresta também.

“A gente se reuniu novamente em Alta Floresta e começou uma reconstrução”, conta Laurent.

Arregaçaram as mangas. Para se adequar às novas condições, foi necessária uma mudança de estratégia. É o que explica Walter.

Ele se lembra até hoje de uma reunião em que foram tomadas as decisões de organizar o setor administrativo, o que simbolizava criar maturidade institucional.

“Partimos de uma situação quase informal para a formalidade. Chegamos a precisar devolver dinheiro para financiador, então fomos nos adequando e melhorando os processos”, conta.

As exigências de financiadores de projetos começavam a se avolumar nesse período e o ICV via a necessidade de se adaptar à nova realidade. Para garantir novos recursos e possibilidades de trabalhar, era necessário “organizar a casa”.

Implementar procedimentos administrativos para prestação de contas aos financiadores e contratar por CLT, por exemplo.

“Com isso e Laurent, com a característica forte que tinha de ir atrás das coisas, nós conseguimos novos projetos”, lembra Walter.

O ICV entrava numa nova fase, fruto da articulação construída com outras instituições nos anos anteriores de atuação.

Começava a colocar em prática estratégias pensadas ainda na virada do século, quando Sérgio, Laurent e Vitória se reuniam em um hotel e pensavam na formação de um “cinturão” de áreas protegidas para conter o avanço do desmatamento na região conhecida como ‘Arco do Desmatamento’.

Proteger para conter

Um ano depois, Roberta Roxilene arrumou as malas com seu marido e a filha de apenas três anos. Partia de Porto Alegre (RS) para Alta Floresta, onde a família residiria por cinco anos.

O casal de geógrafos realizava o que Roberta classifica como “sonho de todos da profissão”: uma experiência na Amazônia.

“O ICV estava nesse momento de reinvenção e buscava pessoas que trabalhavam com áreas protegidas e ao mesmo tempo a instituição buscava consolidar o setor de geoprocessamento”, conta.

Gustavo, seu companheiro, era ecólogo e tinha experiência com áreas protegidas, ao passo que Roberta trabalhava com SIG (Sistema de Informação Geográfica), ferramenta de análise e gestão espacial.

Como parceiro executor de um projeto da WWF, em 2005 o ICV construiu o Plano de Manejo da Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, uma unidade de conservação decretada com mais de 300 mil hectares no sul do Pará.

O ano de 2005, conta ela, foi a época “áurea” nas políticas públicas ambientais do país.

As fiscalizações foram intensificadas e a exploração madeireira ilegal, que naquele período simbolizava a principal economia da região norte de Mato Grosso, perdia força.

Sistemas de monitoramento nacionais como o Prodes e o Deter passavam a ser implementados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Foi um período permeado por esses dois temas, áreas protegidas e monitoramento, e o ICV fortalecia essa atuação, acabou por se tornar uma referência local e nacional”, conta a geógrafa.

Atualmente, o ICV é uma instituição referência em análises dos dados de desmatamento e queimadas no estado de Mato Grosso.

O bem sucedido trabalho da chamada Rebio resultou numa continuação da parceria entre ICV, WWF e ICMBio. “Uma tríade que havia dado certo”, classifica a geógrafa.

Logo após, a instituição se tornara protagonista da criação do Parque Nacional do Juruena.

Criado em 2006, a unidade de conservação abrange uma área de dois milhões de hectares entre o norte de Mato Grosso e sudoeste do Amazonas.

É considerado o quarto maior parque nacional e integra a Bacia do Tapajós.

Técnica e diálogo

No processo de criação da área protegida, o ICV conduzia a parte técnica dos planos de manejos e implementava a expertise adquirida nos anos anteriores de dialogar entre diferentes setores.

“A instituição tinha uma capilaridade e capacidade de fazer uma ponte com as comunidades locais do entorno”, diz Roberta.

A presença de ONGs era por vezes confundida com a atuação comando-controle do Estado, fortalecida naquele momento, e a percepção das instituições na área rural era, em diferentes casos, negativa.

Em um projeto do ICV denominado “Diálogos” em curso à época, um componente previa a construção de uma metodologia de gestão de conflitos socioambientais. Era um desafio.

Roberta foi uma das que aplicava questionários dentro de Apiacás, um dos municípios do entorno do parque escolhido pela complexidade da área: abarcava terras indígenas, unidades de conservação, garimpo, extração de madeira e pecuária.

Para uma das perguntas, o ICV era citado muitas vezes como uma instituição que “atrapalhava” o desenvolvimento da região, justamente por estar envolvido na criação de áreas protegidas.

“De certa forma, foi reconhecimento de um papel que estávamos desenvolvendo”, comenta.

Não era possível agradar a todos, mas, nas conversas e aproximações, o ICV conseguia firmar parcerias estratégicas nos diferentes ambientes, o que possibilitava os resultados dos trabalhos.

“O ICV atuava com essa mediação: conversava com agricultor, com ONG internacional, com Governo Estadual, com o setor madeireiro”, comenta Roberta.

Mesmo com foco na criação de áreas protegidas e no monitoramento ambiental, nunca deixava de lado a atuação de base. Estava lado a lado da agricultura familiar, por exemplo, onde hoje atua com ainda maior intensidade. “É parte do DNA da instituição”, define Roberta.

O grupo de ativistas que protestava nas cachoeiras do que viria a se tornar o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães provavelmente não tinha em mente que formaria uma instituição cuja atuação seria decisiva para conter o desmatamento na Amazônia.

Walter classifica essas conquistas como resultado daquilo que é o alicerce do ICV: as pessoas.

“Vi muita gente trabalhar de forma voluntária, pela paixão mesmo, nesses momentos de crise. Porque quando estamos falando da área ambiental, o que nos move vai além do emprego, do salário, é uma consciência e uma força de cuidar do nosso planeta”, finaliza.

A vontade, o trabalho e a resiliência foram as características que tornaram possível que o ICV, em abril de 2021, complete 30 anos.

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