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Terça-feira, 17 de maio de 2022

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três anos na Sema

Mauren comemora diminuição de desmatamento, rebate críticas e cobra que países desenvolvidos 'paguem a conta' por produção sustentável

Foto: Rogério Florentino / Olhar Direto

Mauren comemora diminuição de desmatamento, rebate críticas e cobra que países desenvolvidos 'paguem a conta' por produção sustentável
A Secretaria de Estado de Meio Ambiente ganhou destaque em 2021 principalmente com a participação da secretária Mauren Lazzaretti na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 (COP-26) em Glasgow, na Escócia. Mato Grosso voltou para casa com a expectativa desafiadora de zerar as emissões de Carbono até 2035. Mas não foi só isso que movimentou a discussão ambiental em 2021. Segundo a secretária, o estado conseguiu reduzir o desmatamento ilegal e aumentar a porcentagem dos desmatamentos legais, se aproximou dos cidadãos e pretende, em 2022, digitalizar todos os processos da pasta.

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Em entrevista ao Olhar Direto, Mauren ainda rebate críticas de ambientalistas, diz que o agronegócio pode ser um aliado na luta pelo Meio Ambiente, critica matérias que julga “sensacionalistas” sobre a desertificação do Pantanal e cobra que os países desenvolvidos “paguem a conta” pela produção mais sustentável do Brasil, ou optem pela mudança de suas matrizes econômicas.

Leia a íntegra da entrevista:
 

Olhar Direto – Primeiro, queria que a senhora fizesse, em geral, uma avaliação desses quase três anos à frente da SEMA.

Mauren – Difícil... Na verdade, assim, nós conseguimos evoluir. Como sempre a secretaria é um órgão bastante intenso, delicado, a pandemia acrescentou desafios diferentes, né? Já é uma pasta de desafios de grandes proporções, a pandemia potencializou esses desafios, mas acho que nós chegamos ao final do terceiro ano com avanços muito significativos de um modo geral na política ambiental do estado. Então nós fizemos atualizações da normatização e dos procedimentos que são bastante impactantes para a sociedade. Vou destacar alguns. Primeiro nós revisamos toda a lei de taxas, então as atividades que de algum modo precisam ter pagamento para o estado para que para que tenha contraprestação foram reduzidas. Isso é um avanço para a população, principalmente em momento de pandemia, era sempre uma crítica que a as taxas do estado de Mato Grosso eram uma das mais caras do país. Então nós fizemos uma revisão, todas elas foram reduzidas.

Nós também fizemos uma compatibilização de procedimentos do licenciamento, que talvez seja o serviço que tem o maior índice de reclamação da sociedade, tanto pela eficiência quanto pela burocracia. Então nós, de certa forma, compatibilizamos. Não é uma simplificação, nós elencamos outros tipos de procedimentos mais simplificados para aquelas atividades de menor complexidade. Então nós criamos a LAC, que é licença para adesão e compromisso, para atividades de reduzido impacto, aquelas que ainda estão abaixo do pequeno, é uma licença totalmente automática, trouxemos o sistema novo, a licença tem saído na média de dez dias de SEMA, dez dias do empreendedor, uma média de vinte dias, isso é um ganho de eficiência, inclusive porque a tecnologia está associada a esse instrumento. Também criamos a licença ambiental simplificada para essas atividades de pequeno potencial e aí fica realmente o tempo e a complexidade para aqueles empreendimentos de maior grau de potencial poluidor no procedimento tradicional de [Licença Prévia] LP e [Licença de Operação] LO. Com isso, nós ganhamos escala, melhoramos a prestação de serviço para a sociedade, nós temos um tempo reduzido na [Licença por Adesão e Compromisso] LAC, nosso tempo médio está abaixo de 180 dias, o que era uma reclamação. Nós paramos de receber as pessoas aqui batendo na porta e dizendo, ‘ah estou com processo há um ano, há dois anos, há três anos’. Hoje as pessoas vêm: ‘olha, eu sei que eu protocolizei o processo faz sessenta dias, mas eu estou precisando’. Então, você muda a perspectiva da relação Secretaria com o usuário do serviço. Isso era uma reclamação muito constante e essa reclamação também gerava possibilidade de fraude, de corrupção, então a gente elimina essa possibilidade com a eficiência do órgão e também melhora o atendimento com o cidadão.

A nossa relação com os Ministérios Públicos é muito construtiva, eles participam da construção das políticas públicas, o [Cadastro Ambiental Rural] CAR de Mato Grosso é o que tem maior índice de aplicação, de implementação no país, nós fechamos a redução de desmatamento em 20%, afastamos os ilícitos e também aumentamos o ilícito, nós temos saímos de 5% de desmate - do total apurado - o lícito era 5% em 2019 para quase 24% em 2021. Então, a gente está reduzindo de uma no geral e está ampliando o que é desmatamento lícito em quatro vezes. É uma perspectiva de tornar o órgão mais eficiente e com isso a gente eliminar o passivo. Temos projetos importantes, avançamos muito em relação ao Pantanal, o projeto Carbono Neutro, o programa Mais MT também traz aqui para a Secretária uma perspectiva de melhoria das unidades de conservação, temos pensado nisso, lançamos o mirante no Parque Mãe Bonifácia, temos buscado implementar também algumas ações que melhores a percepção do cidadão [...] com a secretaria, a política de educação ambiental, a coordenadoria de atendimento ao cidadão tem buscado se aproximar, e somos o terceiro estado com o melhor site de transparência do país, a transparência ambiental, então a gente tem recebido de diversas entidades o reconhecimento da melhoria dessa política pública para o estado.
Conseguimos avançar pela pandemia, melhorando produtividade, avançando em eficiência, então acho que o balanço é positivo. Temos muito a fazer ainda, mas nós conseguimos avanços muitos positivos nesses três anos.
 
OD- Para o próximo ano. Três anos já foram a maior parte do trabalho, mas tem alguma coisa que ficou por fazer, que você espera fazer no próximo ano?

Mauren – Nós temos uma entrega significativa para a sociedade que é a entrega da digitalização dos processos da secretaria. Nós não conseguimos concluir toda a transformação de processo físico para processo digital, porque são processos complexos. Não é só digitalizar papel e colocar isso dentro do computador. Os sistemas de licenciamento, de outorga de recursos hídricos, o próprio CAR são sistemas complexos que interagem com informações geoespaciais, então é localização, são dados de solo, de vegetação, então são gamas, camadas de informação para auxiliar na eficiência da análise que tornam esse sistema complexo. Para o ano de 2022 temos entregas importantes para a sociedade, que eles vão ter mais facilidade para acessar os produtos, maior facilidade para ter cópia integral, tanto para o usuário quanto para os órgãos de controle. Então nós devemos entregar o sistema total de recursos hídricos, então as outorgas de recursos hídricos serão totalmente digitais, as informações e o processo em si. Assim como todo licenciamento ambiental de empreendimentos, que hoje é físico, e uma melhoria ainda dos processos florestais que hoje já são digitais, mas que vão ter uma dinamização maior, a qualidade da informação num único sistema, porque hoje a gente tem dois sistemas trabalhando em conjunto para conseguir fazer o processo ser todo digital. E por fim, o que eu acho que é muito importante no comecinho do ano, o processo de responsabilização. Os autos de infração serão também todo um processo digital, com inteligência, apreensões, embargos, desembargos, toda essa informação vai estar geoespacializada e totalmente digital.
 
OD – E a senhora pretende estar à frente disso ou tem pretensões políticas, pensa em sair da Secretaria para se candidatar a algum cargo?

Mauren – Não, não tenho pretensões políticas. Até conversei com o governador, meu objetivo é fazer as entregas desse projeto que é macro, que é modificador, na verdade, da perspectiva do usuário da secretaria, que vai melhorar muito, não só a prestação de serviço à sociedade, mas a qualidade da informação ambiental. O objetivo do governo, o governador no início da gestão, 2019, disse, ‘olha, nós queremos reverter a imagem do órgão e a credibilidade’. Porque ela estava em um momento delicado no início da gestão. Então todo o objetivo da gestão foi aproximar dos órgãos de controle, ficar cada vez mais transparente as informações ambientais, porque isso, de certa forma, afasta ilicitude, afasta possibilidade de corrupção, e melhora também a interação do usuário, daquele que faz o controle com a secretaria. Queremos chegar ao final da gestão entregando uma nova secretaria, totalmente digital, eliminando papel, mas não só digital, com eficiência das informações, do controle ambiental que ela exerce. Ainda há um planejamento para implementação das unidades de conservação, para que elas sejam espaços que de fato o cidadão possa interagir com o Meio Ambiente.

OD – Sobre a COP, a senhora acabou de retornar, e com uma perspectiva bem desafiadora de neutralizar as emissões de carbono até 2035. A gente está num estado em que a base da economia é a agricultura, tem muitas críticas de ambientalistas em relação a isso, ao desmatamento em Mato Grosso, como é possível  Mato Grosso chegar a alcançar essa meta que foi colocada lá na COP?

Mauren - A gente vê que as críticas às vezes são muito generalizadas. O projeto que Mato Grosso construiu de trajetória de descarbonização considera as atividades produtivas, então nós temos ações que foram estudadas e que foram elencadas como ações prioritárias para essa trajetória. Lembrando que a produção em si também pode fazer o sequestro de carbono. Então já existem diversos estudos que demonstram que a forma como o Brasil produz é diferente da produção da Europa, dos Estados Unidos, a forma de produzir. E essa diferença na forma de produzir também se reflete na questão do sequestro e remoções de carbono. Que que Mato Grosso quer com isso? Ele quer inserir o setor produtivo nessa trajetória, nesse projeto e eles foram inseridos, tanto que já aderiram, e o próprio se produtivo já vinha realizando estudos para viabilizar uma produção mais sustentável e com mais neutralização. Então qual é a nossa perspectiva? Que somando esforços entre políticas públicas que - aí sim aquelas voltadas ao desmatamento ilegal - com uma produção sustentável, assim entendida aquela que aplique tecnologia para que ela possa emitir menos e sequestrar mais, a gente consegue chegar a 2035 com Net-Zero. Óbvio que isso precisa de investimento também para que o setor privado possa se adaptar, porque produzir com essas tecnologias é mais caro do que uma produção como acontece em outros países do mundo. O objetivo do nosso programa é chamar atenção de investidores que queiram participar de projetos consistentes, que tem fundamento científico, para que isso viabilize o Net-Zero. O governo, o poder público, já tem o seu planejamento para combate aos ilícitos ambientais, a gente tem evoluído, nós estamos descolando dos outros estados da Amazônia. Prova disso que Mato Grosso nunca esteve atrás do Amazonas no nível de desmatamento nos números de desmatamento e nós já estamos atrás do Amazonas, ou seja o Amazonas está aqui matando mais que Mato Grosso, isso historicamente nunca aconteceu, o que demonstra que a nossa política de tolerância zero aos ilícitos tem funcionado. O desmatamento lícito é uma pequena porção, e se ele for realizado dentro dos métodos e com uma produção na sequência não é ele que vai impactar ou que vai inviabilizar o Net-Zero. Então essa é a nossa estratégia.

OD - Falando ainda sobre a COP. Como que a senhora percebeu com as outras pessoas de lá a não presença do presidente Jair Bolsonaro? As pessoas falam de que forma da gestão do Meio Ambiente no Brasil?

Mauren - Em linhas gerais, óbvio que sempre se critica a ausência do Bolsonaro. É sempre uma expectativa muito grande. Mas ao mesmo tempo o Brasil estava lá representado, o estande do Brasil acho que era um dos mais movimentados da COP. Os eventos que tiveram lá tinham muita qualidade, então você percebia informações a respeito do Brasil, independente da presença física do presidente da República ou não. Ao final, a gente já tinha voltado, mas o ministro de Meio Ambiente participou das últimas negociações e o que nós vimos de resultado foi até bastante positivo porque o Brasil foi quem deu o tom para que fosse criado o mercado de carbono global. Então a gente percebe que existia uma atuação brasileira, ainda que não tenha sido pela presença física do presidente Bolsonaro, e os estados brasileiros que estavam lá estavam bastante atuantes. Então a gente percebeu sim um reconhecimento dessa atuação independente. Óbvio, e aí a crítica é política em relação à figura do presidente, mas do balanço das ações, do que vieram de negócios, o que o que se abriu de perspectiva de negociações na COP, para Mato Grosso, por exemplo, foi extraordinário.
 


OD - O estado de Mato Grosso estuda implantar essa venda de crédito de carbono? Qual é o potencial de arrecadar recursos com essa venda da dos créditos de carbono?

Mauren – A potencialidade é de vários bilhões de dólares. O que a gente precisa entender é do que existe de recursos disponíveis o quanto Mato Grosso pode arrecadar. É por isso que nós temos uma perspectiva de aproximadamente R$ 200 milhões, negociações que já estão acontecendo para um tipo de mercado de carbono que é de pagamento por reduções de desmatamento, que é no programa REM. A gente já tem a fase 1, estamos negociando a fase 2, na COP essas negociações evoluíram bastante, e existe um potencial enorme de reduções antigas, e possíveis reduções que a gente venha a ter, que seria de bilhões, que não existe recurso hoje disponível para isso. O que nós procuramos apresentar para que os recursos que estejam disponíveis possam vir para Mato Grosso? Uma estrutura de projeto, de governança, que permita esse aporte de recursos. Por isso que Mato Grosso mostrou o programa ‘Carbono Neutro’ e também mostrou a PCI, que é a estratégia ‘Produzir, Conservar, Incluir’, que é um mecanismo de governança que permite recebimento de recurso e distribuição para os três cenários, porque qualquer trajetória de descarbonização, qualquer projeto para eliminar carbono envolve setor público e setor privado, e ambos precisam de investimento. Agora, nosso potencial é muito grande. Se nós fossemos analisar o que a gente tem de toneladas que já foram sequestradas, que a gente não emitiu com a redução do desmatamento de 87% de 2004 para cá, estaríamos falando de bilhões, mais de R$ 19 bilhões, algo acima, isso pensando na variação do que seria o pagamento em si. Nós só comercializamos uma pequena parcela, que é o que o governo Federal autoriza e que houve recursos. Mas nosso potencial é infinito, vai depender do quanto nós vamos ter de recurso dirigido para esse mercado e para o Brasil, e dentro do Brasil Mato Grosso se apresenta como um dos estados mais viáveis, com certeza.

OD – E esses recursos viriam de onde? De outros países ou de empresários daqui?

Mauren – Nós temos diversas alternativas. Existem fundos privados, existe a coalizão LIF, que é uma coalizão de diversas empresas, existe o Fundo Britânico, que também está focado em ações de conservação, e existe ainda o que a gente chama de mercado voluntário, que seriam empresas diretas ou empreendedores diretos que queiram investir nesse mercado. O mercado não está consolidado, então não tem uma regra. Nós estamos construindo isso. Por isso que o governado brasileiro, talvez por ter maior maturidade nesse aspecto, é que contribuiu para o mercado global, e o que a gente – a crítica que foi feita, na verdade, da conclusão da COP, é que os investimentos em si não ficaram acertados. Então a gente tem um mercado criado, a gente tem uma forma de reconhecer o crédito de carbono, porém não tem dinheiro. E é essa a cobrança que a gente faz, que o governador fez, e que faz o próprio presidente Bolsonaro, talvez não com muita habilidade. Os governos estrangeiros de primeiro mundo, que tem uma matriz econômica emissora, têm que pagar a conta. É essa cobrança. Ou eles mudam a matriz econômica, e eles não estão dispostos, vale ver o que vocês acompanharam da discussão da questão do da energia fóssil. Então eles não estão dispostos a mudar a matriz econômica, então eles têm que pagar para que a gente faça uma compensação ao redor do mundo, mas esse investimento não é pequeno. E não está claro da onde vem o dinheiro. Então as críticas são reais a essa questão de compra. Desviar o foco falando só da Amazônia, da Amazônia, criticar, é na verdade, talvez uma cortina de fumaça para não deixar floral o problema central, que é: o modelo econômico utilizado pelos países de primeiro mundo foi ‘utilize o recurso natural na sua plenitude’. As propriedades rurais no mundo não têm reserva legal, não têm preservação permanente, eles usam 100% do território. Aqui nós temos que ter. Então custa mais caro. A produção com conservação, com preservação, ela é mais clara, mas isso não está reproduzido, então a gente não tem competitividade. Tudo isso precisa ser monetizado. Essa é a discussão. É realmente uma economia verde, uma economia que divida recursos, não só lucro. Eu também tenho que dividir isso com a conservação de recursos naturais. A gente faz isso aqui por obrigação legal. Lá o que está sendo feito é cobrar que eles façam isso de forma voluntária.
 

 
OD - Mudando um pouco de assunto, saindo da COP, teve uma questão que foi muito discutida recentemente que foi a implantação das PCHs nos rios, né? Inclusive tivemos algumas críticas de especialista, a gente até conversou com o professor Chico Peixe que falou que a partir daquele estudo da [Agência Nacional de Águas] ANA que foi feito foi determinado quais rios poderiam ter PCHs e quais, se tivesse, teria um impacto ambiental gigantesco. Como que está essa questão aqui na SEMA, já foi analisado onde vão ser feitas as PCHs, esse estudo da ANA entrou na mesa para ser analisado também?

Mauren - Bom, o estudo da Agência Nacional de Águas, ele incorpora a matriz de dados que orienta a Secretaria na análise de qualquer licenciamento. Acho que a pergunta é mais específica sobre o complexo de PCHs do Rio Cuiabá, que é o único empreendimento que nós teríamos hoje numa zona vermelha, dentro do estudo. Nós não conseguimos analisar o projeto ainda. Porque na verdade ele foi sobrestado pela Secretaria até a finalização das análises do estudo da Agência Nacional de Águas e quando o estudo realmente aportou a secretaria e fez parte do nosso arcabouço de materiais a subsidiar à análise, o empreendedor pediu para complementar informações e na sequência veio a decisão do Gilvan para sobrestar a análise. Então hoje nós estamos aguardando dentro do processo, até porque explicamos para o magistrado que o estudo faz parte do arcabouço, nós sobrestamos os processos para considerá-lo em qualquer análise. Então ou nós conseguimos analisar considerando o estudo, ou vamos ficar aguardando para conseguir fazer efetivamente a análise do processo.
 
OD – Mas ele é determinante, este estudo da ANA? Por exemplo, se está numa zona vermelha não vai ser feito ou não?

Mauren - O estudo não tem esse poder. É um estudo. O que que o estudo aponta? Estando na zona vermelha ele tem um potencial de causar um impacto à ictiofauna, que é esse ponto aqui, muito significativo, então você tem que considerar. O estudo não tem como ser determinante porque não é uma norma. Mas ele potencializa, ele te dá dados que sugerem um impacto muito significativo naquele eixo de análise.
 
OD – E tem alguma perspectiva de quando isso pode ser analisado?
Mauren – Estou dependendo de decisão judicial.
 
OD – Outro assunto, a senhora deve ter acompanhado um projeto de lei do deputado Max Russi para proibir a pesca profissional em 80km do Rio Manso-Cuiabázinho. Também foi uma polêmica na AL, falaram que isso na verdade estava criando sítios pesqueiros para pesca esportiva na naquele território e que também poderia causar problemas ambientais porque, ao pescar e soltar, os peixes ficam machucados, morrem, enfim. Queria saber a opinião da senhora sobre isso. Esse projeto está parado, mas deve voltar à discussão em breve.

Mauren - Eu acho que a gente tem muita colocação empírica. Existem vários locais no mundo que fazem pesca esportiva. E a pesca esportiva tem obviamente algum percentual pequeno de comprometimento dos animais, o que é muito menor do que a pesca em si, tradicional. Começa por aí. Então pode haver melhoramentos, estratégias, formas de realizar a pesca esportiva, mas a princípio não acho que exista motivo para vedar a pesca esportiva porque ela acontece ao redor do mundo e é inclusive uma estratégia para manter a tradição da pesca, mas conservar o recurso pesqueiro em si no curso d’água, isso é um ponto - e existem vários estudos científicos mostrando que o percentual de perda é muito pequeno. Em relação a criar um sítio pesqueiro ou não, basta lembrar que o governo mandou um projeto de lei no início da gestão para proibir a pesca no estado inteiro. Isso tem um impacto social que é o que precisa ser avaliado e estudado e é o que eu acho que está em curso pela própria Assembleia, pelo Governo do Estado, [de] como conduzir a do ponto de vista social e cultural que precisa ser corrigido. Mas existe uma condição que é inegável por todos, basta conversar com os mais diversos tipos de pescadores: não tem mais peixe no rio. Existe uma percepção natural daqueles que pescam, que o estoque pesqueiro está reduzido, e outros estados vizinhos já adotaram essa medida como uma estratégia para reforçar o estoque pesqueiro. Então, talvez a gente tenha que reavaliar o todo. A iniciativa dele é um pedacinho, talvez uma região que tenha mais sofrido, pelos dados. Eu recebo aqui todo aqui pessoas que questionam como está a pesca, quais são as medidas que o Governo... mas essa não é uma medida só ambiental. Ela também é cultural e social e aí a gente precisa avaliar com um pouquinho mais de calma.
 
OD - Mas ambientalmente...
Mauren - Mas do ponto de vista ambiental, nós não somos contra.
 
OD - A senhora estava falando da do fogo no Pantanal, ano passado virou notícia no mundo inteiro a questão das queimadas, da seca, chegou a fumaça em Cuiabá, enfim. Esse ano os dados apresentados pela SEMA, pelo Governo, mostraram uma redução muito grande das queimadas, mas mesmo assim recentemente a gente viu várias matérias falando sobre o Pantanal, acho que na semana passada teve uma da National Geographic falando que o Pantanal está num estágio em que não vai mais ser possível recuperá-lo. Queria que a senhora falasse sobre isso, se tem como salvar o Pantanal, qual é a situação do Pantanal hoje? Porque na matéria da National falava que o Pantanal está a pouco de virar uma área desertificada.

Mauren - Eu acho que existe um pouco de sensacionalismo nisso e não tem um cunho científico. O que existe uma preocupação de todos os órgãos de controle é com a questão da seca, da sazonalidade dessa seca e do retorno ao ambiente natural. Existem vários estudiosos, como a Embrapa Pantanal, que tem trinta anos de estudo, e aí eu não tenho como desconsiderar trinta anos tudo por uma matéria, por mais que ela tenha um cunho científico, às vezes o quanto você aprofundou no estudo é que vai dizer se o seu resultado é condizente com a realidade ou não. Existe uma preocupação com a área alagada do Pantanal? Existe. Existem estudos sendo realizados para que as limitações de uso do Pantanal também tenham relação com o impacto que isso possa causar com os alagamentos. E existem ações pontuais que a gente corrige constantemente para evitar, de certa forma, não é uma desertificação, mas que algumas áreas do Pantanal acabem secando. É o que nós estamos fazendo com a Baía de Chacororé, com a Siamariana, com a interrupção para que tenha logística, com o tipo de atividade que é exercida lá ou não, mas o fato é que assim, todo o esforço do Estado é para criar políticas públicas do ponto de vista ambiental e social também que permitam que o Pantanal se mantenha e que as pessoas que vivam no Pantanal consigam sobreviver com os limites que o bioma impõe para a economia daquela região. Nós temos que trabalhar com o fortalecimento dessas economias.

O que me preocupa um pouco é as pessoas acharem que tirando as pessoas do Pantanal, o Pantanal vai estar preservado, e não funciona assim. Se ele esteve preservado é porque as pessoas estiveram convivendo com esse ambiente ao longo do tempo. É um exercício bastante difícil. A Embrapa tem várias estratégias criadas para o Pantanal, que permitem entender como eliminar o excesso de biomassa. Não é abandonar o Pantanal que vai fazer com que ele se reestabeleça à vida. Tem estudos que mostram que vários ambientes do Pantanal foram alterados. A chamada ‘pastagem nativa’, que inclusive propicia esse alagamento, está se transformando em floresta de Cambará. Não é um ambiente natural do Pantanal. Certo? Então esta invasão de espécies que não são do Pantanal e que não tem a ver especificamente com a questão humana, mas até com a ausência da questão humana lá para fazer essa limpeza, também estão prejudica Pantanal. A linha que a gente precisa entender é como conduzir o Pantanal de tal modo que esse bioma, com todas as suas sensibilidades, permita a questão econômica e social. A seca do Pantanal não é exclusiva do Pantanal, a gente sabe, a Agência Nacional de Água coloca isso como Brasil e América do Sul, o centro aqui com uma seca, então a gente tem secas também na porção amazônica, no cerrado. Obviamente que ela impacta mais no Pantanal, mas a expectativa é que isso seja sazonal e que isso retorne nos próximos cinco anos, óbvio que aos poucos. O exercício agora então é, nesse período em que deve retornar as áreas alagadas, o que que a gente precisa fazer para permitir que esses ambientes possam se restaurar ao máximo do passado. Eliminar essas invasões de vegetação que não são próprias do Pantanal, que não fazem parte daquele ambiente natural, permitir o exercício atividade de ecoturismo, de turismo ambiental, melhorar a logística porque se não as pessoas não vão. Então tudo isso é um exercício no Governo do Estado tem feito. E óbvio, o fogo é sempre uma preocupação principalmente pela questão dos animais. Então todo o nosso planejamento para redução de focos de calor se mantém nesse período, independente de ser um período de extrema seca ou na sequência. O ano de 2020 foi atípico, historicamente nunca existiu nada nesse sentido, nem em relação à seca e nem em relação aos incêndios. Esse ano nós ficamos mais próximos do normal. A tendência é que a gente possa ainda reduzir um pouco mais nos próximos anos e eliminar de certa forma a questão dos incêndios que são ilegais. Mas aí depende da questão cultural também. Basta vocês verem que uma boa parte dos incêndios se inicia lá em terra indígena...Eu acho que esse é um ambiente também que a gente tem que compreender até onde pode eliminar a questão cultural dos indígenas.
 
OD - A senhora citou Siamariana e Chacoré. Como que está a situação lá? A Sema está acompanhando, mas voltou a alagar?


Mauren - As baías tiveram um retorno ainda não significativo de água com as medidas que nós executamos no início desse ano, antes do período de cheia. Com as medidas que nós executamos ela encheu um pouco, mas não está dentro da normalidade. Na seca agora, que foi muito extrema, ela baixou novamente bastante, e nós estamos implementando algumas ações que visam fazer com que ela possa se restabelecer mais ainda nessa chuva que vem que ao que tudo indica será maior do que a do ano de 2021, então a gente deve ter um período chuvoso, com maior volume de água em 2022 do que aconteceu em 2021, e também tem uma ação judicializada. Então tem divergências dentro do que a Secretaria aponta como medidas a serem executadas e que o Ministério Público entende, e nesse caso o juiz vai ter que decidir qual vai ser implementado, ou aquela proposta pelo MP ou aquela que os órgãos do governo do estado colocam como sendo as alternativas mais viáveis.
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