A exploração ilegal de madeira na Amazônia brasileira registrou aumento de 184% em Unidades de Conservação (UCs) entre agosto de 2023 e julho de 2024. No período, foram explorados ilegalmente 8,1 mil hectares nessas áreas, contra 2,8 mil hectares no levantamento anterior. Os dados constam em estudo divulgado nesta quinta-feira (18) pela rede Simex, formada pelo Instituto Centro de Vida (ICV), Imaflora e Imazon. Mato Grosso lidera entre estados com maior área florestal explorada para fins madeireiros na Amazônia, com 190 mil hectares, o equivalente a 58% do total.
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No total, 327,6 mil hectares de florestas nativas foram explorados para fins madeireiros no bioma, o que representa uma redução de 10,5% em relação ao período anterior. Desse total, 69% (225,1 mil hectares) tiveram autorização dos órgãos ambientais competentes, enquanto 31% (102,5 mil hectares) ocorreram de forma ilegal.
Além das Unidades de Conservação, o levantamento aponta crescimento da exploração madeireira ilegal em Terras Indígenas (TIs) e assentamentos rurais. Nas TIs, a área explorada chegou a 25,2 mil hectares, aumento de 24%. Já nos assentamentos rurais, foram registrados 6,7 mil hectares, alta de 66% em comparação ao período anterior.
Entre as áreas exploradas sem autorização, os imóveis rurais privados concentram 53% da atividade ilegal, com 54,4 mil hectares. Apesar disso, houve redução de 39% nessa categoria em relação ao levantamento anterior.
As áreas de exploração madeireira foram identificadas por meio de imagens de satélite, cruzadas com dados de autorizações ambientais. O Simex é o principal sistema de monitoramento da exploração madeireira legal e ilegal na Amazônia, reunindo informações de sete estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima.
Segundo Leonardo Sobral, diretor de Florestas e Restauração do Imaflora, os dados indicam estabilidade na área total explorada, mas revelam a persistência da ilegalidade em áreas sensíveis. “A consolidação dos dados do Simex mostra que o avanço do monitoramento tem permitido separar com mais precisão o manejo sustentável da exploração que ocorre à margem da legalidade”, afirmou.
Para Camila Damasceno, pesquisadora do Imazon, embora a redução da extração ilegal seja positiva, a queda da exploração legal acende um alerta. “Isso pode indicar enfraquecimento da gestão florestal e gerar um mercado desleal para quem atua dentro da legalidade”, destacou.
Ranking
Mato Grosso lidera o ranking de estados com maior área florestal explorada para fins madeireiros na Amazônia, com 190 mil hectares, o equivalente a 58% do total. Em seguida aparecem Amazonas, com 46,1 mil hectares (15%), e Pará, com 43 mil hectares (13%).
Dos dez municípios com maior exploração ilegal no período, seis estão em Mato Grosso: Aripuanã (1º), Colniza (3º), Nova Ubiratã (4º), Paranatinga (6º), Marcelândia (7º) e Juína (9º). Também integram a lista Lábrea (AM), Paragominas (PA), Porto Velho (RO) e Dom Eliseu (PA). Juntos, esses municípios concentram 51% de toda a exploração madeireira ilegal mapeada na Amazônia.
Para Vinicius Silgueiro, coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV, Mato Grosso lidera o ranking por fatores como a relevância econômica do setor florestal, o histórico de ocupação e a persistência da ilegalidade, especialmente em áreas protegidas. “Coibir a exploração ilegal exige fortalecimento da fiscalização, melhoria da rastreabilidade, transparência e incentivo ao manejo florestal sustentável”, pontuou.
Ilegalidade avança sobre áreas protegidas
O levantamento de 2024 acende um alerta ao mostrar que a exploração ilegal cresceu justamente em áreas legalmente protegidas. Ao todo, 33.454 hectares foram explorados ilegalmente em Terras Indígenas e Unidades de Conservação, aumento de 44% em relação a 2023. Isso representa cerca de um terço de toda a área explorada sem autorização no período analisado.
As Terras Indígenas concentraram a maior parte da ilegalidade, com 25.278 hectares (25% do total ilegal), enquanto as Unidades de Conservação responderam por 8.177 hectares (8%).
Segundo Júlia Niero, analista técnica do Imaflora, o avanço da ilegalidade nessas áreas evidencia falhas estruturais no comando e controle. “Além da retirada de árvores, a exploração ilegal intensifica a degradação ambiental, a perda de biodiversidade e o risco de incêndios, afetando diretamente territórios estratégicos para o clima e para os povos indígenas”, afirmou.
O padrão geográfico se repete em regiões historicamente pressionadas, como o sul do Amazonas, o norte de Rondônia e o noroeste de Mato Grosso.
Entre as Terras Indígenas mais impactadas estão a TI Aripuanã (MT), com 8.601 hectares, o Parque Indígena do Xingu (MT), com 4.770 hectares, a TI Kaxarari (AM/RO), com 2.885 hectares, e a TI Amanayé (PA), com 2.026 hectares. Juntas, essas áreas concentram 54% da exploração ilegal em áreas protegidas.
Nas Unidades de Conservação, a Reserva Extrativista Guariba/Roosevelt (MT) lidera como a mais afetada em 2024. Para Júlia Niero, o dado mostra que a ilegalidade é dinâmica e pode migrar rapidamente. “Nenhuma área protegida está livre de risco quando há falhas de fiscalização e impunidade no entorno”, alertou.