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Segunda-feira, 22 de julho de 2024

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Trabalhando por hospedagem e alimentação, mochileira viaja pelo Brasil e América do Sul: ‘saí com R$ 700’

Foto: Reprodução

Trabalhando por hospedagem e alimentação, mochileira viaja pelo Brasil e América do Sul: ‘saí com R$ 700’
Foi apenas há quatro anos que Sueli Pereira Nobre, de 30, viajou de avião pela primeira vez, quando juntou algumas economias e comprou um pacote para conhecer o Rio de Janeiro (RJ). Apesar de sempre sonhar em viajar pelo mundo, o desejo parecia muito distante para a realidade dela, que foi criada por uma família humilde de Pontes e Lacerda (MT). Mesmo sem dispor de muito dinheiro, Su, como é conhecida, decidiu tirar o sonho do papel e pegou estrada com R$ 700.


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“Sempre quis ser livre, poder viajar, ter esse recurso financeiro para realizar isso, mas minha família é muito simples, não temos dinheiro, viajar e estudar é coisa que não faz parte do cotidiano da família, sou uma das primeiras a ter feito faculdade”. 

Foi quando se mudou para Cuiabá, para cursar Recursos Humanos, que a mentalidade de Su se abriu para novos horizontes. Depois de ter contato com pessoas que viajavam com frequência, ela conta que a sede de conhecer o mundo aumentou ainda mais. Aos 26 anos, ela viajou pela primeira vez para o Rio de Janeiro (RJ), mesmo achando que era algo fora da realidade dela. 

“Vivia em um círculo de pessoas que nunca viajaram ou estudaram. Meu pai é pedreiro e minha mãe empregada doméstica. Minha primeira experiência foi no Rio de Janeiro, conheci mochileiros que acampavam em pontos turísticos para ganhar dinheiro e continuar a viagem, eram argentinos, conversei mais de meia hora com eles, comecei a seguir”. 

Depois de ter contato com os mochileiros argentinos no Rio de Janeiro, o sonho de viver na estrada tomou conta dos pensamentos de Su, que foi em busca de mais informações sobre o que precisava para conseguir fazer um mochilão. A mato-grossense descobriu, então, aplicativos que ofereciam oportunidades de trabalho em troca de hospedagem e alimentação. 



No entanto, como precisava trabalhar muito para sobreviver, Su conta que não sobrava tempo e muito menos dinheiro para tirar o plano do papel. “Em Cuiabá, trabalhava em uma livraria, depois abri um carrinho de açaí no CPA 2, fiz isso por uns oito meses e fiquei doente, só que eu não tinha ninguém para me ajudar em Cuiabá, foi quando decidi voltar para o interior, vendi meu carrinho de açaí e abri uma loja de acessórios e maquiagem”. 

Em 2019, com todo o dinheiro que tinha, ela abriu a loja de acessórios e maquiagem, mas logo em seguida foi surpreendida com a pandemia da covid-19, que quebrou o negócio, lhe deixando apenas com as dívidas. Para arcar com o prejuízo, Su começou a fazer faxina com a ajuda da mãe. 

“Comecei a lembrar que não queria aquilo, minha depressão voltou por causa de todas as coisas que estavam dando errado, a pandemia. Tive um insight e resolvi buscar onde tinha anotado as coisas que a vendedora me disse, achei essas anotações e comecei a pesquisar”. 

Preparando para pegar estrada

Mesmo com o sonho da vida nômade adormecido, Su fez muitos cursos de artesanato e trabalhos manuais durante a pandemia. Ela explica que seguia perfis de outros viajantes nas redes sociais, mas não se identificava com o discurso de trabalhar com internet, computação ou marketing digital. 

“Pensei no que iria fazer, decidi que levaria uma mochila com esses acessórios [feitos por ela] e venderia. Comecei a me planejar por quatro meses, paguei todas as minhas dividas e me sobraram R$ 700. Saí de casa com R$ 700 e um sonho em março de 2021, sem data para voltar, iria ver o que aconteceria pelo caminho”. 

Hoje, Su afirma que se considera uma artesã, já que é o artesanato que lhe possibilita custear a viagem pela América do Sul, a reforma da casa em Pontes e Lacerda e, eventualmente, ajudar financeiramente os pais. No e-book que desenvolveu para encorajar outras mulheres a viajarem sozinhas, a mato-grossense tem um módulo chamado “Livre e Fora das Telas: Um Guia para a Vida Nômade Não-Digital”. 
 

Na primeira experiência como mochileira, Su viajou pelo Brasil. “Passei por Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, depois fui para São Paulo e subi toda a costa até o Maranhão, vendendo artesanato. Depois parei em Jericoacoara. Sempre fazendo intercâmbio, porque a plataforma que minha amiga me passou o nome, a World Packs, oferece hospedagem e alimentação gratuita em troca de algumas horas de trabalho, dá para viajar muito assim”. 

Ela não esconde que a modalidade de viagem é cansativa, mas afirma que foi a forma que encontrou para encaixar o estilo de vida que tanto desejou com sua realidade financeira. “Dá para as pessoas juntarem uma grana, que não foi o meu caso, mas também dá para a pessoa conciliar com o trabalho, fica muito mais puxado, porque tem dias que trabalho até 12 horas, mas é a minha condição financeira, né? Tenho que trabalhar para continuar viajando”. 

Conhecendo a América do Sul 

Entre 2021 e 2022, Su viajou apenas pelo Brasil, mas neste ano saiu de casa com a meta de conhecer a América do Sul. Ela pegou um ônibus em Cáceres e atravessou a fronteira para a Bolívia, começando a jornada. Atualmente, ela está em Bogotá, na Colômbia, e nos próximos dias já planeja viajar para o Caribe colombiano. 

“Depois da Bolívia fui para o Peru, fiquei um mês fazendo intercâmbio voluntário, em Lima e no Norte, já nas nevadas, onde é mais frio. Conheci Cusco, não conheci Machu Pichu, infelizmente, porque estava doente e não poderia fazer a caminhada. As coisas acontecem para gente no mesmo nível, ficamos doentes, a vida não para. Fiquei três semanas em Lima, foram quase 40 dias viajando pelo Peru”. 

No Equador, Su passou três meses, apesar de ter planejado ficar apenas um. Ela explica que, ao longo da viagem, começou a entender que poderia permanecer mais em alguns lugares quando se sentisse confortável. Foi assim no Equador, onde encontrou boas oportunidades de trabalho em um país barato para se manter. 

“É um país menor que Mato Grosso, super barato, apesar de ser dolarizado. Com 2 dólares você come muito bem em um restaurante. Lá me apareceram oportunidades muito lindas de trabalho, fui permanecendo e aproveitando. Tirei o último mês para conhecer o Norte do Equador, a Amazônia, os vulcões, escalei um vulcão, vivi coisas que nunca imaginava há quatro anos, quando minha vida era totalmente diferente”. 

Su conta que a experiência mais transformadora que teve durante a experiência como mochileira aconteceu na Isla del Sol, no Lago Titicaca, na Bolívia.  A ilha era sagrada para os Incas, onde se encontravam os santuários das "vírgenes del sol", dedicado ao Deus Sol. A viajante relata que se reconectou consigo mesma e com seus sentimentos enquanto estava na ilha. 

“Hoje viajo e vou sentindo o que cada lugar tem para mim, antes ficava me cobrando por permanecer nos lugares mesmo me sentindo triste ou infeliz, mas a Isla del Sol me transformou nesse quesito, sinto muito mais a energia dos lugares e das pessoas. Depois que saí, ouvi muitos relatos de que é uma ilha mágica, que a civilização inca começou na Isla del Sol”. 

Assédio na estrada 

Quando decidiu sair de casa para viajar sozinha, Su confessa ter se sentido insegura com o que poderia acontecer por ser mulher, já que os episódios de assédio são frequentes. Apesar do receio de ser vítima de assédio enquanto viajava, a mato-grossense foi em busca de referências. 

“Quando comecei a buscar referências de mochileiros e nômades, busquei referências de mulheres e mulheres pretas, porque a realidade de uma mulher branca viajando também é diferente, e também de mulheres pobres, porque eu estava sem dinheiro. Encontrei alguns perfis e comecei a maratonar todos os conteúdos, fazer perguntas, paguei consultoria para compreender e me sentir mais segura”. 

Ela conta que muitas pessoas perguntam como é a questão do assédio para uma mulher que viaja sozinha, mas ela lamenta pela resposta. “Sempre pergunto: você nunca sofreu assédio onde você está? Não é o lugar, infelizmente. O assédio acontece porque somos mulheres, infelizmente. Já sofri assédio dentro de casa quando era criança”. 

Durante a viagem, ela já passou por episódios complicados dentro e fora do Brasil, sendo alguns mais complicados de simplesmente ignorar, como ela define os assédios que sofreu na Bolívia, no norte do Peru e nos Lençóis Maranhenses. Mesmo com as dificuldades que atravessam a vivência de uma mulher, Su também encontrou parceiras na estrada. 

“Comecei a participar de vários grupos de mulheres que viajam sozinhas, existem vários dentro e fora do Brasil, uma apoia a outra, tem uma comunidade gigante, somos uma comunidade muito unida, acho que as mulheres viajantes são muito mais solidárias uma com a outra, porque no mundo real as mulheres ainda tem muita rivalidade, mas me senti muito protegida por mulheres durante a viagem”. 

Com o ebook que criou para outras mulheres que também pensam em se tornarem mochileiras, Su busca ser a referência que ela precisou quando pensou pela primeira vez em sair de casa para viajar pelo mundo. 

“Tento ser referência, falo muito sobre essa questão de mulher viajando sozinha e também de não ter dinheiro, porque mostro a minha realidade, meu trabalho. Ensino como empreender, porque venho desse mercado, hoje tenho um ebook com um módulo sobre trabalhos não digitais para viajar o mundo. Antes de me descobrir artesã fiz várias coisas, brigadeiro, bolo, todos podem aprender, ninguém nasce sabendo”.
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