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Segunda-feira, 22 de julho de 2024

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COEXISTÊNCIA COM GADO

Especialista desenvolve modelo de anti-depredação das onças em fazendas do Pantanal

Foto: Reprodução

Especialista desenvolve modelo de anti-depredação das onças em fazendas do Pantanal
Médico veterinário, com mestrado em animais silvestres na universidade de Gainsville, na Florida, o venezuelano com ascendência alemã, Rafael Jan Hoogesteijn, tem trabalhado com a Panthera Brasil desde 2018, na pesquisa de felinos, como a onça-pintada e a jaguatirica, no Pantanal mato-grossense. Especialista em técnicas de anti-depredação, o pesquisador tem mostrado para os fazendeiros pantaneiros sobre a importância da coexistência da pecuária com as onças-pintadas.


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São vários os experimentos que fazem parte do assessoramento promovido por Rafael. Desde a criação de búfalos mansos, do gado pantaneiro, ao uso das cercas elétricas, de várias maneiras. 

“Eu sou veterinário, trabalhei toda minha vida com a pecuária. Tenho gado e tive gado na Venezuela, e búfalos e tenho gado aqui no Brasil também. Sempre tive muito interesse na onça-pintada e a questão da predação. Com o tempo eu fui trabalhando nessa parte, pesquisando e trabalhando e hoje virei praticamente um especialista nesta área”, conta Rafael ao Olhar Conceito.

“Estou trabalhando fortemente com a Panthera nessa área, temos várias fazendas particulares aqui no Brasil, que trabalhamos em colaboração. Também estamos iniciando um programa com a Associação Brasileira de Pecuária Orgânica (ABPO), com a Fazenda São Francisco, em Mato Grosso do Sul, a Fazenda Juruena, no arco amazônica, perto da cidade de Juruena, aqui em Mato Grosso, e várias aqui na Transpantaneira. Em outros países, como Colômbia, Belize e Costa Rica, também”, complementa.

Conforme relata ainda, Rafael está desenvolvendo uma tecnologia de convivência com as onças e o gado, para impedir a morte dos animas da espécie. Mesmo sendo proibido, por lei, no Brasil, a política entre fazendeiros e comunidades no Pantanal “é de que predador bom é predador morto”.



“Estamos em uma área onde a onça é muito importante, do ponto de vista do turismo, e muito importante para várias fazendas e comunidades locais de Porto Jofre, e é proibido matar onça por lei, e matar não resolve o problema. O Pantanal tem 300 anos matando onça, e a terra legal continua do mesmo jeito, porque você mata uma onça e vem outra, e continua o problema ou pior”, explica Hoogesteijn.

“Essa onça, muito de vez em quando, matava uma vaca, um gado, bezerro, mas também mantinha o regime de comida com capivara, jacaré e outras presas. Mas quando você elimina essa onça, vem uma onça nova que só mata gado e só piora”, complementa.

Segundo o médico veterinário, o problema com a predação das onças na região é solucionado com três pilares de trabalho, implantados na pecuária por Rafael. O primeiro é o aumento da base de presas naturais, como jacarés e capivaras; o segundo é o controle destas presas e o terceiro é ajudar o pecuarista a produzir mais e melhor.

“Com o aumento das presas naturais, as onças tem acesso à mais comida, e também evitamos assim o espalhamento de doenças, com o controle das espécies de presas. Isso também tira a vulnerabilidade do gado, para ser mais difícil ela predar a criação doméstica e ir nas presas naturais. Além disso, quando o pecuarista produz mais, controla as perdas que ele teve ou ainda está tendo, porque nunca vamos controlar o problema 100%, vamos diminuir o problema e aumentar a tolerância do pecuarista com a onça-pintada ou a parda”, pontua Hoogesteijn.

São várias as estratégias anti-depredação, como: cuidar do bezerro recém-nascido, com estações de serviço, onde limita o nascimento dos bezerros em alguns meses do ano; utilização de búfalos mansos em conjunto com o gado no pastejo ou nos currais de fechamento noturno; utilização do gado pantaneiro, que se defende bem do ataque da onça; uso da cerca elétrica, alarmes especiais com detecção de movimento e luminárias nos fechamentos noturnos, entre outras.

“A utilização da cerca elétrica tem várias modalidades, como por exemplo, nas áreas de fechamento noturno e na maternidade. Também pode ser usada para isolar toda a fazenda, se for pequena, ou usar como barreiras nas matas ciliares, impedindo a saída da onça e a entrada do gado na mata”, conta o especialista.

As medidas já foram adotadas por algumas fazendas na região da Transpantaneira, como a sede própria da Panthera e suas vizinhas. A Pousada Piuval é uma das adeptas e hoje serve como um modelo para outros pecuaristas.

“A Piuval é muito importante, porque é pioneira na parte de ecoturismo, e acho que a onça virou a atração aqui há pouco tempo, uns 4 ou 5 anos. Antes, atração era tamanduá bandeira, capivara, ema, anta. E a onça virou a estrela de Hollywood. Então, a Piuval está sendo pioneira em integrar esse turismo, da onça pintada, junto com a pecuária”, conta Rafael.

“O bom no Pantanal e em outras regiões da América Latina é que podem existir duas atividades, complementares, sem ter conflitos uma com a outra. Só que tem quer tirar a vulnerabilidade do gado, porque a fauna está protegendo o ecoturismo, a base de comida da onça está aí. A onça quando aprende a comer gado, ela gosta, e ela vira um problema com o gado mesmo. Ela vai nos bois pois é fácil de predar, sem precisar gastar muita energia, e ela come tudo”, complementa.

Para o médico veterinário, o pecuarista pode ter uma boa receita com a união das duas atividades, o turismo e a pecuária. No entanto, reforça que nem toda fazenda é adequada para turismo.
Foto: Nicoli Dichoff

Perspectivas

O plano de Rafael Jan, junto com a Panthera Brasil, é levar a estratégia anti-depredação para o maior número de fazendas possível, visando a proteção das onças no país. O especialista afirma que não adianta um grupo de fazendeiros proteger o gado, sendo que há outro grupo que não adota as medidas. Dessa forma, as onças vão nos gados desprotegidos, e os produtores rurais vão continuar matando-as.

“Chamamos isso de a fonte e o sumidouro. O importante é fazer essa atividade de estratégia anti-depredação de forma ampla, ao lado de áreas protegidas ou nos corredores entre essas áreas, para ter um efeito. Não somente queremos pecuaristas felizes e donos de pousadas felizes com o turismo, mas também uma população de onças saudáveis e em expansão, com bom intercâmbio genético. Tem que ser um trabalho em grande escala”, explica.

Dificuldades

Conforme o especialista, uma das principais dificuldades é convencer os pecuaristas a adotarem as medidas de proteção do gado e da onça, pois é um grupo com mentalidade ainda muito tradicionalista.

“Eles falam que os avôs trabalhavam dessa forma e porque deveriam modificar o jeito de gerir o gado. É difícil trabalhar com o pecuarista porque ele tem o seu sistema de trabalho e eles também são um pouco desconfiados e céticos com a ONGs, porque já tiveram experiências negativas”, conta.

“Mas você sempre encontra pessoas interessadas, como o João Losano Eubank Campos Júnior [da Pousada Piuval], que queria provar coisas novas. Começar a trabalhar com ele, demonstrou que funciona e outros pecuaristas ficam de olho, que o negócio está funcionando e não tem perda. É um processo devagar. Tínhamos muita teoria e pouca pratica, mas hoje mudou já”, completou.



Búfalos

Uma visão distorcida que muitas pessoas tem sobre o uso de búfalos no Pantanal é que eles são predadores, no entanto, Hoogesteijn afirma que o problema foi a má introdução do animal nas fazendas localizadas no bioma.

“O búfalo não é predador, o que acontece é que ele foi introduzido, não foi bem gerido, o búfalo bagual, muitas vezes pode ser agressivo com as pessoas. Fez uma população muito grande de búfalos bagual, que estão em expansão, e já é um problema ecológico. Agora o búfalo manso, quando bem gerido e em expansão, é uma grande ferramenta, muito boa, para evitar os ataques de onça-pintada, porque ele defende muito bem, ele anda junto e defende um ao outro. Nós usamos muitos búfalos nos currais de fechamento noturno, dormindo junto com os gados. E depois dormindo no lado de fora, para evitar que as onças cheguem perto, porque o cheiro também deixa o gado em pânico, e saem para fora. Então, o búfalo é um animal bem produtivo, que tem que ser bem gerido”, explicou.

Panthera Brasil

A Panthera Brasil é uma ONG Brasileira, fundada em 2014 que visa a conservação dos felinos selvagens. Utilizando a experiência dos principais biólogos felinos do mundo, o Panthera Brasil desenvolve e implementa estratégias globais para as sete espécies de grandes felinos: chitas, leopardos, onças, leões, pumas (também conhecidos como leões da montanha ou pumas), leopardos das neves e tigres. O Panthera também estuda e protege as espécies de pequenos felinos mais ameaçadas do mundo por meio de nosso Programa Pequenos Gatos.

Representando o esforço mais abrangente de seu tipo, a Panthera tem parceria com ONGs locais e internacionais, instituições científicas, comunidades locais, governos em todo o mundo e cidadãos que desejam ajudar a garantir um futuro para os gatos selvagens.

No Pantanal, a ONG tem trabalhos na região há mais de 12 anos, com a sede na Fazenda Jofre Velho, uma das mais importantes bases de pesquisa no bioma.
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