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Sábado, 26 de setembro de 2020

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Aldeias precisam de unidades básicas de saúde, defende presidente da Federação Indígena em MT

Da Redação - José Lucas Salvani

22 Dez 2019 - 16:02

Foto: Rogério Florentino/Olhar Direto

Aldeias precisam de unidades básicas de saúde, defende presidente da Federação Indígena em MT
O presidente da Federação dos Povos Indígenas em Mato Grosso (Fepoimt), Crisanto Rudzö Tseremey’wá, defende que sejam instalados unidades básicas de saúde (UBS) em cada aldeia para assegurar um melhor atendimento aos povos. O último relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), publicado em setembro, aponta que 60 crianças foram vítimas de mortalidade na infância e um indígena foi morto por desassistência médica.

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O relatório do Cimi é publicado anualmente e o deste ano é referente a 2018. Em Mato Grosso, o Cimi apontou cinco casos de desassistência médica. O estado, junto do Acre, ocupa o segundo lugar com o maior número de desamparo. Maranhão e Pará lideram o ranking, com seis casos cada, enquanto Paraná, Rondônia e Alagoas fecham o “pódio” com três casos cada. No total, o Brasil soma 44 descasos.

“Deveria ter aparelhado unidade básica de saúde (UBS) nas aldeias, colocando as equipes fixas, não multidisciplinar. Aliás, sem a equipe multidisciplinar, mas [somente] fixo. Hoje ela funciona como uma equipe itinerante, temporária. Isso contribui para ter esses dados graves e alarmantes”, explica o presidente da Federação.

Crisanto acredita que as UBSs, além de diminuir o impacto e melhorar a saúde dos indígenas de Mato Grosso, também iriam proporcionar menores gastos. “A infraestrutura não existe, por isso é mais caro. Por isso honera recurso público. Está tendo mais gastos que o próprio SUS. Isso não chega no ouvido do Ministro da Saúde”, completa.

Em Mato Grosso, de acordo um levantamento feito pelo Fepoimt ao Olhar Direto, há 87 terras indígenas para 43 povos. Caso houvessem unidades em cada uma dessas terras, seriam, logo, 87 UBS.

Quanto ao número de mortalidade na infância, Mato Grosso fica em terceiro lugar, estando atrás do Amazonas (219) e Roraima (76). Os números são da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e referentes a crianças de 0 a 5 anos. Em Mato Grosso, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Xavante é o mais atingido, com 40 casos, seguido pelo DSEI Cuiabá (8) e DSEI Xingu (4).

“De acordo com as informações da Sesai, a mortalidade infantil e na infância estão diretamente vinculadas à fragilidade dos acompanhamentos pré-natal e pós-natal. E, ainda mais grave, a mortalidade é ocasionada por conta das precariedades ambientais, falta de saneamento básico e porque, em geral, não há sequer água potável em muitas aldeias. Em âmbito nacional, existe deficiência alimentar e nutricional nas comunidades indígenas por vários fatores, dentre eles as mudanças dos hábitos alimentares”, aponta o relatório.

Crisanto pontua que os problemas quanto a mortalidade na infância não é um problema que atinge somente os povos indígenas de Mato Grosso. De acordo com a Tábua Completa da Mortalidade 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa nacional é de 12,4 por mil habitantes. 

“Essa questão de mortalidade é problema social, problema do Brasil. É alarmante. É acima da média nacional porque a saúde indígena é de subsistema. Ela está no embrião do SUS. Se a gente tiver consciência quanto cidadão brasileiro, como é que um subsistema vai ser melhor que a sua matriz? Se o SUS não melhorou, como é que o que está no seu embrião será melhor?”, questiona.

A Tábua também aponta que o estado de Mato Grosso é o oitavo no ranking da probabilidade de um recém-nascido não completar o primeiro ano de vida. A porcentagem é de 16,1%. Amapá, Maranhão e Rondônia são os estados com as maiores porcentagens com 22,8%, 19,4% e 19,3%.

“O subsistema é frágil e fraca. Não tem estrutura necessária para poder responder o seu papel institucional, por isso está nesta situação”, pontua.

Suicídio indígena

De acordo com relatório do Cimi, foram dois suicídios contabilizados em Mato Grosso durante o ano de 2018. No Brasil, o número chega a 101 casos. Para a pesquisadora Paula Rey Vilela, também mestre e doutoranda em psicologia, os indígenas não estão conseguindo lidar com as mudanças sociais ocorridas nos últimos anos.

Vilela entrou em contato com os karajás, espalhados por Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará, por meados de julho deste ano para uma pesquisa e ouviu diversos relatos de suicídios na comunidade e adjacentes. Muitos, inclusive, se misturam com as crenças locais que envolvem até o lançamento de um feitiço de um pajé.

No material levantado até o momento, a pesquisadora percebeu que os karajás associam o suicídio com o contato com os tori, aqueles que não são indígenas. Essas comunidades estão cada vez mais inseridas em um contexto globalizado, com acesso ao comércio, tecnologia e outras culturas. Para ela, é este contato que influencia no suicídio por eles não conseguirem lidar com tais mudanças sociais.

“Eles têm esses acessos de tecnologia que mudou muito o pensamento deles. Isso fragiliza muito e foi muito rápido. É como se não tivesse sido digerido ainda. (...) Eles não estão sabendo lidar com este contato da melhor forma, de uma forma saudável e positiva. Eles estão usufruindo deste contato da pior forma, com alto índice de álcool que está ocorrendo. Muitas separações e conflitos conjugais”, explica.

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