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Premiado mundo afora, pianista cuiabano vive metade do ano no anonimato em MT

Da Redação - Isabela Mercuri

22 Jul 2018 - 14:35

Foto: Rogério Florentino Pereira/Olhar Direto

Premiado mundo afora, pianista cuiabano vive metade do ano no anonimato em MT
Talvez as longas tardes em que Nizete Asvolinsque, ainda gestante, passou costurando o enxoval de seu filho ao som de Tchaikovsky sejam as responsáveis pelo talento que ele apresentou ao mundo já com três anos de idade. Cuiabano de família ucraniana, anos depois, Walter Leão Asvolinsque ganhou o mundo. Premiado internacionalmente e reconhecido até mesmo na China, ele voltou para Cuiabá quando sentiu saudades de casa, e é aqui que passa os dias estudando o que sempre amou: o piano.



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O nome, na realidade, é ‘Azwolinsky’. Veio com o avô materno da Ucrânia para o Brasil, em 1911, mas foi alterado pelos cartórios do novo mundo, que desconheciam as letras z, w e y. Parte da família de Walter ficou na Argentina, mas sua mãe veio parar no Centro Geodésico da América Latina. Ou seja, em Cuiabá. Foi aqui que teve seu filho.

O talento do garoto - que não tem ninguém na família ligado à música – apareceu ainda muito pequeno. “Os meus pais falaram que com dois anos eu já parecia ter interesse. Com três, eles falaram que eu já tocava. Com quatro, eu já me lembro de estar tocando”, contou o pianista ao Olhar Conceito, em uma entrevista realizada em seu estúdio, no bairro Quilombo, onde guarda suas duas preciosidades: um piano fabricado no Brasil, e outro, no Japão. Ambos de calda e afinados a cada três meses.



Dos quatro aos sete anos, Walter tocava piano na casa de sua avó, sem nunca ter feito aulas. Até que, aos oito, tornou-se aluno de Dalva Lúcia, no Conservatório Brasileiro de Música. Por seu talento nato, era a celebridade do local, o que também prejudicava seu crescimento. Até que encontrou uma pessoa que, ao invés de se surpreender com o que ele já fazia, exigiu mais: Dunga Rodrigues.

“Eu estudei cinco anos com ela. E ela que começou a me colocar no eixo, porque no Conservatório eu era estrela, faziam tudo o que eu queria, mas ninguém me colocava a disciplina. Eu não sabia ler [partitura]. Eu tocava todas aquelas peças difíceis, mas não sabia ler. Depois de Dunga eu comecei a ler as notas, entender as notas. Só que já foi tarde, já tinha doze anos”.

Walter passou cinco anos como aluno de Dunga, até perceber que Cuiabá era muito pequena para seu sonho. Mudou-se para a Califórnia, onde vivia uma tia, aos dezesseis anos. Fez graduação, mestrado, pós-graduação, ganhou três prêmios, bolsas de estudo, e cruzou com outra pessoa que o fez crescer.

“Eu tive a sorte de estudar com uma professora polonesa. Estudei uns nove anos com ela, lá na Califórnia. E ela me mandou estudar com o professor dela, que é um dos alunos de um dos professores mais famosos do mundo de piano, um russo”. Walter foi embora para a Polônia. Estudou também na Inglaterra, antes de voltar para os Estados Unidos.

Nestes anos de vida – ele não revela quantos – já tocou em quase todos os cantos do mundo. Ganhou prêmios na Califórnia, na Polônia, o prêmio Villa-Lobos, e toca anualmente na Ásia (China ou Japão) desde 1998, onde também ministra aulas. “Eu gosto muito de fazer trabalho na Ásia porque eles valorizam o intérprete, valorizam muito o professor. Eu sou convidado pra ser júri, pra ser jurado de concursos, tem muita atividade musical, muita valorização do intérprete, que aqui você não vê”.

Em 2000, depois de girar o mundo, sentiu saudades de casa. “Porque meus amigos de infância e minha família estavam aqui. Eu quis pegar os meus pais ainda vivos, quis viajar com eles. Já estava saturado. Vinte e um anos morando na Califórnia, e eu não queria mais. Já tinha feito tudo o que tinha pra fazer: mestrado, pós-graduação, já tinha morado na Polônia, na Inglaterra... eu queria voltar pra casa”, confessa.

Em Cuiabá, sua rotina resume-se aos estudos. Passa todos os dias, o dia todo, em seu estúdio, o que lhe dá de presente dedos calejados. "Mais perto de apresentação, claro que são mais horas. Mas quando eu não estou estudando, estou sempre lendo literatura sobre história da música, ouvindo outras peças, outros intérpretes. Porque você sabe que literatura pianística é um negócio vastíssimo. Se você quiser tocar quase todas as peças, em 20 anos você não consegue". Esta é, também, a razão de Walter não compor. "Eu quero aprender tanta coisa bonita ainda, que não tenho tempo pra compor". Dentre suas inspirações estão Chopin, Bach, e o brasileiro Ernesto Nazareth. 

Apresentar-se na cidade natal, no entanto, não é mais possível. “Aqui pra você fazer qualquer coisa é uma produção [difícil], e antes eu tinha que levar meu piano, mas agora eu não levo mais. Ele só tem tamanho, mas é super delicado. Esse aqui [o japonês] tem quase meia tonelada, aquele lá [o brasileiro] tem 400kg. Pra ir de caminhão... Eu não sou a Madre Tereza. Infelizmente Cuiabá não tem instrumentos [adequados], e por isso não faço mais aqui, tenho que fazer fora. Cansei de dar murro em ponta de faca”.



O dinheiro para seu sustento vem todo de fora. “Se somar todos os meses, com todas as viagens, eu passo uns cinco, seis meses viajando. Vou para os Estados unidos pelo menos quatro vezes ao ano. Pra Europa pelo menos duas. Pra Ásia duas, mas quero ir uma só, porque é muito longe”, lamenta.

A rotina de viagens também não é fácil. “Eu fico 30, 40 dias fora. Agora, da última vez eu retornei pro Brasil, no final de novembro, tinha passado por nove cidades na Ásia. Nove cidades, nove aeroportos, trem-bala... Chega na última semana, eu não vejo a hora de chegar em casa. Aí eu chego em casa, e o avião é mais rápido do que a mente da gente, né? Eu vim de Pequim, cheguei em casa 10h30 da manhã dois dias depois... Cheguei e pensei: ‘Gente, eu estava em Pequim dois dias atrás...’ É muito pra cabeça da gente. O avião é mais rápido. Outra coisa que acontece, uns três ou quatro dias [depois de chegar, é que] eu estou no meu quarto, dormindo, acordo e não sei onde estou. Tenho que pensar: eu estou no Brasil? Em que hotel eu estou?”.

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