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Terça-feira, 22 de outubro de 2019

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Cresce taxa de fluorose em crianças e adolescentes

Folha de S.Paulo

03 Jan 2009 - 22:31

Especialistas observam o aumento de fluorose dentária em diversas regiões do país. Ocasionado por ingestão excessiva de flúor na infância, o problema causa manchas brancas no esmalte dos dentes.

Dados preliminares de um estudo feito pela FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que deve ser publicado neste ano, mostra que a prevalência de fluorose entre avaliados de Piracicaba, no interior de SP, aumentou de 13% em 1992 para 37% em 2007.

"Há vários estudos em áreas com e sem água fluoretada. Em ambos os casos, temos observado o aumento de fluorose nos últimos anos", diz Antônio Carlos Pereira, professor do Departamento de Odontologia Social da FOP.

Outro trabalho, realizado em João Pessoa (Paraíba) em 2007 com 1.114 estudantes, mostrou que 30% deles tinha fluorose. "Isso mostra que mais crianças têm o problema. Em comparação aos dados anteriores, esperávamos a prevalência de 15% a 20%", afirma o dentista Fábio Sampaio, professor do Departamento de Clínica e Odontologia Social da UFPB (Universidade Federal da Paraíba).

Apesar de estudos isolados apontarem o aumento, não há dados relativos a todo o país. "Pesquisadores brasileiros e estrangeiros concordam, em sua maioria, que a maior exposição ao flúor nas últimas décadas foi acompanhada por um aumento de fluorose. Mas não foram realizados no Brasil estudos com amplitude nacional que permitam afirmar isso", explica o dentista Paulo Capel Narvai, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Um dos principais responsáveis pelo aumento de fluorose, segundo os dentistas, é o uso incorreto da pasta de dentes na infância. "O sabor agradável [das pastas infantis] é uma armadilha, pois elas se assemelham a balas, o que estimula a deglutição. Sabe-se que crianças menores de cinco anos ingerem cerca de 30% da quantidade de pasta utilizada em cada escovação", alerta Narvai. Para ele, as pastas de dentes devem ser consideradas medicamento e usadas com orientação.

Por isso, os pais devem monitorar a escovação e orientar a criança a usar pouco creme dental. "O recomendado é um pontinho de pasta, e não a quantia mostrada pelos comerciais. O problema não é a pasta em si, mas, sim, a educação das pessoas", enfatiza Pereira.

Novas fórmulas

Ao menos dois grupos de pesquisa buscam desenvolver novas formulações de creme dental que seriam eficazes para prevenir a cárie com menor risco de fluorose. Pesquisadores da USP de Bauru, no interior de SP, criaram um produto com teores de flúor e pH mais baixos do que os das pastas convencionais. A formulação foi testada em um estudo randomizado duplo-cego com 1.400 crianças durante 20 meses.

"Há, no mercado, pastas com a mesma concentração de flúor, mas existem controvérsias sobre sua capacidade de prevenir cárie. Para manter a proteção anticárie com menos flúor, diminuímos o pH", diz Marília Buzalaf, professora de bioquímica e cariologia da Faculdade de Odontologia da USP de Bauru, no interior de SP.

Na UFPB, estuda-se um produto que pode aumentar a concentração de cálcio na cavidade bucal. Como esse elemento retém flúor, pode ser possível diminuir a concentração da substância na pasta. "Essa formulação ajudaria a criança a não ingerir o flúor, já que ele se concentraria na cavidade bucal", diz Sampaio.

Idade de risco
Há risco de fluorose quando ocorre ingestão excessiva de flúor durante a formação dos dentes permanentes, dos 11 meses aos sete anos de idade. Casos leves, que formam a maioria dos constatados em pesquisas, levam à formação de manchas brancas. Os mais graves podem causar má-formação e aumento da porosidade do dente.

Odontopediatras têm opiniões distintas com relação às pastas sem flúor disponíveis no mercado para crianças pequenas. Para Fábio Sampaio, a discussão ainda é grande. "Alguns dentistas indicam pastas sem flúor, mas há risco. É preciso um monitoramento intenso da escovação --e essa condição nem sempre existe. Nos próximos 15 anos, certamente esse tema ainda será debatido, pois não há consenso entre os profissionais sobre a dose mínima de flúor necessária para proteger contra a cárie", acrescenta.