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Quarta-feira, 16 de junho de 2021

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APÓS GRANDE PERDA

“Ele absorve muito o que eu sinto”, conta advogada sobre animal de assistência emocional

Foto: Reprodução

Priscila e seu companheiro Ploc.

Priscila e seu companheiro Ploc.

“O Ploc absorve muito o que eu sinto”. A fala é da advogada ambiental Priscila Russo, de 37 anos, que possui um animal de assistência social há seis anos, desde quando perdeu seus pais, que foram vítimas de câncer. Os animais de assistência emocional  são recomendados por psicólogos e psiquiatras para alguns casos de depressão e ansiedade.

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“Não há melhor tratamento psiquiátrico do que um cão lambendo o seu rosto. Só quem tem sabe. Eu sei que tem pessoas que criticam a forma que eu trato o Ploc. Eu humanizei ele, vamos dizer assim. (...) Se as pessoas soubessem a importância que o animal pode [ter e] ajudar dentro do ambiente familiar, não estou falando o indivíduo, é dentro de casa. Tudo fica mais alegre e colorido [quando se tem] um animal dentro de casa”, conta.

Em meados de 2013, Priscila perdeu seus pais, que foram vítimas de um câncer no intestino. O pai foi diagnosticado já com a doença em estágio avançado e faleceu pouco tempo depois. A descoberta do câncer da mãe se deu justamente pela perda do pai. O médico da família recomendou que os membros fizessem exames de colonoscopia, então descobriu-se que a mãe também estava com câncer.
 

O intervalo das mortes dos pais foi de cerca de oito meses. Nesta época, os amigos e familiares recomendaram para que ela adotasse ou adquirisse um animal, para que ela não ficasse sozinha. Não demorou muito para que o Ploc entrasse em cena, com apenas 60 dias de vida.

“Eu sempre gostei e, nessa época, os meus amigos falaram para eu ter um cachorrinho, [dizendo] que iria fazer bem. Logo em seguida, em questão de menos oito meses, minha mãe morreu de forma repentina. O Ploc me ajudou a superar esses traumas que foram bem fortes”, conta. “Com a ajuda psiquiátrica e com o cão, eu consegui superar isso sem o uso de medicamentos”, completa.

O psiquiatra Paulo Henrique Pereira, também professor, explica ao Olhar Direto que é comprovado cientificamente que a presença de animais auxiliam em tratamentos de seres humanos. Para ele, é possível até prevenir crises e “passar uma sensação de segurança” para o paciente. Aqueles que precisam deste tipo de animal possuem, inclusive, um atestado médico.
 

“Cientificamente é comprovado que, sim, estar com um animal perto de você, ao seu lado, encostando no animal, pode se prevenir crises, acalmar a pessoa e passar uma sensação de segurança que a pessoa não está tendo naquele momento durante um tratamento ou até por conta de outras coisas”, pontua o psiquiatra. “Realmente é benéfico. Não sou contra de jeito nenhum. Acho que não deveríamos ser contra nada disso. Ninguém sabe a angústia que a pessoa está passando”, acrescenta.

Inicialmente, Ploc ainda não era atestado como animal de assistência emocional. A recomendação de que o animal fosse certificado para tal surgiu ao longo das sessões com sua psiquiatra, que percebeu a forte ligação que Priscila tem com o animal. Hoje, a advogada tem um atestado que certifica que o Ploc é o seu animal de assistência. 

Os animais de apoio se divergem dos demais animais de serviço. Cães-guia, cães-ouvinte, cães de alerta e cães de serviço precisam de um treinamento especial para atender as necessidades daqueles que apresentam alguma deficiência física, ou incapacidade auditiva, motora e outros. Já os animais de apoio não precisam, necessariamente, de um treinamento, explica a psicóloga Michéli Jacobi, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

“Os animais a serviço são treinados para realizar algo, como puxar cadeira de roda, guia para pessoas com baixa visão ou deficiência visual, e identificar ataques epiléticos. Já o animal de apoio não precisa, necessariamente, ser treinado”, pontua a profissional. O psiquiatra Paulo, todavia, acrescenta que é recomendado um adestramento básico para a convivência em espaços públicos ou, em alguns casos, para perceber crises do paciente.

Apesar de atestado por um psiquiatra, Priscila ainda não pode ir para qualquer estabelecimento com o seu animal de assistência. Ela, inclusive, evita ir em certos lugares onde animais não são aceitos para evitar a dor de cabeça. A escolha por um animal de pequeno porte também foi influenciada pela mobilidade que ela precisa, já que animais deste porte são melhores aceitos em estabelecimentos.
 

“Para onde eu posso ir com ele, ele vai comigo. Inclusive, estou em São Paulo e ele está aqui comigo. Eu levo ele praticamente para todos os lugares, a não ser alguns que não aceitam. Por exemplo, se tem um restaurante com área externa e o tempo está agradável, ele vai comigo”, conta.

Em casos onde não é permitido a entrada de animais em qualquer hipótese, o psiquiatra pontua que a solução seria judicial porque não há legislações no país sobre animais de suporte emocional.

Porcelana

Há mais de dois anos, Priscila trouxe para casa um novo bichinho, a Porcelana, também da mesma raça do outro animal. Na época, Ploc estava muito doente e a advogada também não estava bem. A solução encontrada foi a chegada de um novo bichinho. Do dia da chegada de Porcelana em diante, o Ploc nunca mais teve problemas neste sentido.

Ela confessa que era muito fissurada pelo Ploc e que isso acabava consumindo o cachorro. A chegada de Porcelana veio também para que ela não ficasse tão focada em um único animal, de forma que não prejudicasse nenhum dos dois. “Eu tenho certeza que houve um equilíbrio emocional dentro de mim”, confessa.

Caso internacional

No início de setembro deste ano, uma passageira norte-americana, Abrea Hensley, viajou entre as cidades de Chicago e Omaha acompanhada do pônei Flirty, de 7 anos, que fez sucesso nas redes sociais. O “bichinho” é seu animal de apoio emocional e esta foi a primeira vez que ela fez uma viagem com ele em seu avião, conforme noticiado pelo jornal Extra.

A psicóloga Jacobi explica que não são todos que podem ser animais de apoio. Ela acrescenta que é necessário que o animal seja calmo e dócil suficiente para que seja possível abraçar, beijar e apertar sem que ele reaja de forma negativa. Os cavalos e cachorros são alguns do que se apresentam mais tranquilos e dóceis com os humanos.

Já para o psiquiatra Paulo é preciso tomar cuidado com animais não-convencionais. O próprio pônei, segundo ele, poderia ter machucado os passageiros da viagem durante uma turbulência.

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