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Sexta-feira, 12 de julho de 2024

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A única coisa real é que o mundo virou virtual: a solidão conectada

Arquivo Pessoal

Há pouco menos de 10 anos atrás, era um tempo que não se perdia a Vida com um celular na mão.

Antes sim era o tempo da comunicação!
As pessoas iam à Igreja para ouvir a pregação. Iam para Escola para ouvir o professor. Iam para um Bar conversar ao vivo com seus amigos. Namoravam presencialmente. Falavam com seus filhos presencialmente.

Hoje é o tempo da ilusão. O tempo do modo "on".

Uma Sociedade de Zumbis, é isso que estamos nos tornando.
Igrejas vazias, salas de aulas vazias, bares vazios, casas vazias, namoros vazios, amigos vazios. Tudo muito próximo e ao mesmo tempo tão distante. Um vazio repleto de presenças.

Hoje é tempo de Whatts, Twitter, Facebook, Orkut, Tumblr, Blog, Vlog, Instagram, Gps móvel, etc.
Filmamos tudo. Fotografamos tudo. Postamos em tempo real.

Tudo parece tão próximo. Tudo parece presente...
Mas quase tudo é ausente.

As pessoas ficam ansiosas em lugares que não tem conexão. As pessoas ficam inquietas sem saber porque estão. Elas querem conexão!
Pelo Mundo Virtual, deixam de viver o Mundo Real.

Você não é tão social quanto aparenta em sua Rede Social. Você não tem o número de amigos do seu perfil. Você não tem a fama dos seus seguidores. Você não é tão popular como aparenta ser. Você não está em todos lugares. Você não é feliz como em todas as suas fotos. Você não é linda sem seu PhotoShop. Você não é uma frase de efeito de Tati Bernardi. A única coisa real é que o mundo virou virtual.

Desligamos-nos da vida, às vezes em seus segundos mais sagrados. Mais raros. Mais caros. Desligamos-nos das coisas simples do mundo real. A formiga que passa. O vento que bate a face. Conversas paralelas. Uma peraltice de uma criança ao lado. Olhando para nossos celulares perdemos sorrisos e semblantes. Perdemos nossos olhares. Nossos contatos não são mais reais. Estão em listas. Listagens humanas. Números. Fotografias. Aparências. Imagens. Popularidade.

Para compreender, você deveria se desconectar desses seus efeitos, parar algumas horas, e ler um livro chamado "A Sociedade do Espetáculo" de Guy Debord. Tente isso e vai entender melhor daquilo que falo.

A bunda da filha do Zico dá mais impacto que as mil crianças mortas na Síria. O Big Brother prende uma pessoa por horas sentadinha diante da TV que ainda depois vai para o Pay-Per-View ver o que não viu, a mesma pessoa que não consegue ficar alguns minutos lendo um livro. Os sites mais acessados estão ligados a moda e a vida dos famosos. Tem gente que acompanha todas as tabelas dos campeonatos de futebol todos os dias pela internet. Tem gente que sabe o elenco todo da novela que antecipa seus capítulos pelos sites de fofocas.

Tem gente sabe de tudo, menos daquilo que agrega conhecimento útil para vida.

Sim, eu sei que o inútil faz parte da vida, as coisas fúteis e desinteressadas fazem parte da vida. Porém, tem gente que só vive disso. Estão desconectadas da realidade em sua nova conexão. Não conseguem ler nem bula de remédio. Sua vida sem conexão é um tédio!

Há bem pouco tempo atrás, a sociedade não tinha nada disso e vivia muito bem socialmente.

É um grande engano pensar que precisamos estar 24h conectados. Percebo que alguns jovens não conseguem mais ficar 2h lendo um livro sem desligar-se desse mundo virtual.
Sim, eu sei que tem e-book, livros em arquivo Pdf, que podem ser lidos de um celular.
Mas eu vos pergunto quem realmente lê livros pelo celular?
R: Pouquíssimos!




Pessoas vem sendo consumidas por tudo isso que chamam de Tecnologias de Comunicação, se achando consumidoras, quando na verdade estão sendo consumidas. O tempo mais raro de uma vida tem sido consumido por teclas e telas “Touchscreen”.

Nem nas refeições as pessoas se desconectam. Antes a refeição era uma hora sagrada para reunir a família. Hoje engolimos a comida respondendo mensagens no Whatt's Up. A cada garfada a coisa apita e vibra. (Você deve estar falando o meu fica no modo silencioso) Respondemos e comemos. Às vezes nem comemos. A única coisa que olhamos é o prato e o celular. Chega ser indigesto ver coisas desse tipo no seio de várias famílias.

Se seu celular estiver off prepare-se... Vai ter que se explicar: a bateria acabou, a operadora falhou, estava fora de área, estava no silencioso. Não vi por isso não atendi. São coisas que parecem mentiras para o mundo "on". Sempre pronto! Esse é o lema dos escoteiros da selva virtual.

O que muitos ainda não perceberam é que estar 24h “on”, te abre uma série de possibilidades para receber o mundo em suas mãos. Tem mensagens que podem nos alegrar, mas tem umas que podem mudar nosso dia. Estamos felizes e de repente recebemos algo de ruim que altera nosso estado de ânimo. Uma palavra mal trocada, troca nosso humor. Somos afetados 24h por dia até na hora de dormir. E olha que tem gente que dorme com o celular do lado do travesseiro. Uma falsa companhia para as noites de insônia. Até no banheiro, no vaso ou no chuveiro, estamos no modo on.

Ainda prefiro ser chamado de desatualizado ou de conservador. Velho. Antigo. Ultrapassado. Primitivo. Em partes estou desconectado desse mundo desconexo. Mesmo sem nexo, ainda consigo ficar mais que 3 horas lendo um livro sem parar.

Aquilo que foi feito para aproximar os distantes tem distanciado os que estão perto.

Nossa sociedade está doente de tecnologias.
Celulares Androides produzem pessoas Androides.
O virtual vira o real e o real vira o virtual.
Virtualizamos nossas presenças. Virtualizamos nossas vidas.
Vivemos das aparências.
Aparentamos estar ligados a todos.

As tecnologias são boas desde que saibamos usá-las.
Mas a pergunta que fica:
É você que usa a tecnologia ou ela que te usa?
Você em seu login já tem nome de "Usuário".
Usuário ou viciado?
Deveria ser chamado de "Usado".

Tenho medo de uma geração que usa um celular 3G apenas para ouvir músicas como Camaro Amarelo, etc.. (E outras banalidades)

Tenho medo de uma geração que se desumaniza com suas próprias mãos.

O homem cria a coisa e a coisa 'cosifica' o homem.

Ultimamente tenho visto "coisas" que ainda se autodenominam humanos.

“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. (John Donne)

Vivemos ilhados em meio ao mar de gente. Viramos ilhas. Pequenos arquipélagos de humanidade. Isolados no mar de gente continente. Contingentes de ilhas. Estamos sozinhos em nós mesmos. A morte de ninguém mais nos diminui. Todos os dias, nos vemos em sangue nos noticiários e nada nos falta. Como se todos os sinos dobrassem apenas por ti. Estamos sozinhos.

Viver em meio a essa gente "É um andar solitário entre a gente", como versou Luis de Camões. Só que não é amor.
Apenas solidão com ilusão de presença.

*Reinaldo Marchesi - É professor universitário, mestre em Educação pela UFMT (linha: Cultura, Memória e Teoria em Educação). Pesquisa no campo da Filosofia da Educação. Leitor de Nietzsche, Foucault, Deleuze e Derrida [Os malditos da filosofia]. Escreve todas às sextas-feiras na coluna Filosofia de Boteco

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