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Domingo, 16 de janeiro de 2022

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Falando sobre o candomblé, mato-grossense chega à final de campeonato nacional de poesia falada

Foto: Divulgação

Falando sobre o candomblé, mato-grossense chega à final de campeonato nacional de poesia falada
A mato-grossense Ana Gabriela Santana Corrêa, rapper, cantora, poeta e compositora, chegou à final da edição de 2018 do ‘Slam Br’, maior campeonato de poesia falada do Brasil. Falando sobre candomblé – sua religião -, intolerância religiosa e racismo, ela ficou em quarto lugar, com 88,4 pontos. A vencedora, que vai para a etapa internacional em Paris, é Preta Poeta, de Minas Gerais. Ela fez 89,7 pontos. 

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Natural de Rondonópolis, Ana ouvia rap desde pequena com sua irmã. Ganhou um violão do pai na infância, e começou a escrever suas rimas. Foi só em 2015, no entanto, que subiu em um palco. No ano seguinte, entrou numa batalha de rap, e deu início a sua “coleção de folhinhas”, ou seja, ser finalista ou vencedora de batalhas em Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais.

Este foi a segunda vez que Pacha Ana participou do Slam Br. Em 2017, chegou à semifinal. “E eu acho que eu estava mais preparada [este ano] porque a nossa escrita melhora com o tempo, é pratica. E também a encenação, o recitar, a postura, como você fala... Eu estou com menos vergonha, estou bem mais exposta. Até me falaram isso lá: nossa, seus textos já eram muito bons, mas você está com uma interpretação muito segura agora”, contou a poeta ao Olhar Conceito.

O Slam é uma batalha de poesia falada, em que o competidor tem que seguir algumas regras: só pode recitar poemas autorais, e no máximo em três minutos. Vários poetas disputam as notas de um júri, formado por cinco pessoas, sendo que a maior e a menor nota são excluídas. Na etapa nacional, os competidores passam por três etapas, sendo que em cada uma delas eles recitam três poemas autorais cada. “São três rounds, a primeira etapa é a eliminatória, a segunda é a semifinal, e a terceira é a final. Você é obrigado a ter seis poemas, três pra eliminatória e três pra semifinal. Na final você pode repetir qualquer um dos seis poemas que você já usou anteriormente”, explica Ana. Para chegar à etapa nacional, ela concorreu diversas vezes no ‘Slam do Capim Xeroso’, organizado em Cuiabá pelo carioca Guilherme Raeder.

Em São Paulo, Pacha já tinha mais do que seis poemas, mas preferiu usar apenas seis, e repeti-los na final. Um deles, dos mais ovacionados, fala sobre a inquisição. A poeta é direta: “Quinhentos anos se passaram e ainda segue a tortura / Pra chegar no século XXI, a branca chegar em mim e dizer / Somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar / Porra, tá achando que isso aqui é zorra? / Neta de bruxa o caralho / Cêis são neta das colonizadora! / (...) Não me leve a mal, mas nois já sacou que sua avó é da Universal!”.



“Eu não acho que essa foi a principal frase da minha disputa, mas é um tema que é o principal tema da minha disputa. Que é falar sobre a apropriação que a gente sofre hoje, de como as pessoas inviabilizam e negam a nossa religião de matriz africana, mas se apropriam dela”, explica a autora. “Todo mundo quer fazer uma macumbinha, um trabalho, pular sete ondinhas no final de ano, usar branco no Ano Novo... mas ninguém quer admitir a nossa religiosidade, ninguém quer aceitar a nossa religiosidade, ninguém quer aceitar essa religião de matriz africana. Mas até que ponto? Essa frase não é um ataque às pessoas brancas, nunca foi minha intenção. É que às vezes a forma como a gente se expressa acaba soando como ataque. Mas muitas pessoas brancas não veem como ataque. E essa frase pra mim é exatamente sobre isso: vocês querem se apropriar, mas na hora de reconhecer o nosso lado, não conseguem”.

Sobre o resultado da final, Pacha afirma que não ficou frustrada, e sim feliz por ter representado o estado. “Me sinto muito lisonjeada de estar lá duas vezes representando meu estado, mas também me senti com um peso nas costas muito grande, senti uma responsabilidade muito grande. Quando eu cheguei na final eu vi muitas pessoas daqui me mandando mensagens falando ‘Já é seu, você vai pra França...’, ‘esse titulo é de Mato Grosso...’ e isso me deu um medo muito grande de não conseguir. E depois que eu perdi eu não fiquei frustrada. Eu falei: cara, é isso. Eu cumpri minha missão. Não tem ninguém de Mato Grosso que conseguiu chegar aqui duas vezes, eu sou a primeira mina a vir, sou a primeira pessoa a vir duas vezes do meu estado... as pessoas que estiveram lá duas vezes neste ano eram só eu, a representante do Rio e uma representante de São Paulo. E é um privilégio muito grande. É uma troca muito grande, é um evento muito grande que eu quero que outras pessoas conheçam, mas eu quero muito recitar poesia também, e eu vou continuar no meu corre, na minha criação”.

E na sua própria vida, ela também acredita que o Slam mudou tudo: “O slam mudou na minha vida tudo, assim, a forma de me expressar e a forma de me querer fazer entender. Porque só quando eu falava, só em discurso, as pessoas nem sempre entendiam as coisas. E na poesia parece que as pessoas prestam muita atenção em mim. Então eu me senti entendida recitando poesia. Eu senti que as coisas que eu falava tinham sentido. E isso me deu uma segurança muito louca, muito grande. Uma segurança muito forte, de tomar o que é meu mesmo e falar assim: esse discurso é meu, eu vou me apropriar desse discurso, porque eu tenho propriedade pra falar disso. Aconteceu muito isso sobre esses temas da religião de matriz africana, sobre o candomblé. Eu sempre falei que era do candomblé, nunca neguei isso pra ninguém. Só que recitar poesia falando sobre isso fez eu dar um boom na minha mente. Abriu minha cabeça a ponto de falar: ninguém vai mais me julgar por eu ser de religião de matriz africana. Ninguém vai mais me chamar de macumbeira de forma pejorativa. Eu sou isso aqui mesmo que vocês estão vendo”, finaliza.

Assista ao vídeo da final:



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