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Segunda-feira, 02 de agosto de 2021

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Era do Consentimento

Escravos da liberdade: sobre instintos, amor e ser humano

Especial para o Olhar Conceito - Cecília Neves

28 Out 2013 - 14:51

Há tempos escrevo sobre relacionamentos, sexo, masturbação, homossexualidade e coisas do gênero, sempre levando em consideração o que dura e o que fica. Mas há mais tempo ainda reflito sobre uma das idiossincrasias do que antes eu achava que era próprio do relacionamento aberto, mas agora vejo que é parte de qualquer tipo de relacionamento: amor “versus” instintos.

Talvez amor seja uma palavra forte demais, mas aqui a uso simbolizando o espiritual, o que transcende, sublima e nos eleva da condição de meros animais. Os instintos, por outro lado, estão sendo usados como tudo o que os seres humanos tem em comum com os animais: o desejo pelo outro, a vontade de vingança, o espírito assassino e de sobreviência e coisas do tipo. Não que todos os instintos sejam violentos, não me entenda mal. E não que eu pense que eles são dispensáveis, de forma alguma. São, antes de mais nada, essenciais.

Se você está se perguntando cadê as personagens divertidas e diferentes deste texto para ajudar a desenvolver o raciocínio, convido-os a abrir uma tela preta no computador. O que você vê? Seu reflexo. Isso porque você vai ser o personagem deste texto. Porque você é humano e isso significa que você tem a capacidade de escolher os impulsos instintivos a que vai ceder.

Um dos conflitos de se estar com alguém, principalmente quando se é jovem, é a oposição entre “a vida louca” e a vida altamente comprometida, que exige não só disciplina e caráter, mas um grande nível de confiança e lealdade. Talvez, quando se é jovem, isto não importa muito. Mas como humanos, acho que é algo a se pensar.

Um animal, quando sente o primeiro desejo, aquele impulso que para ele é incontrolável, ele cede e faz. E os humanos? Nós também somos assim? Sinceramente, eu acredito que a gente pode ser, mas que temos a capacidade de nos elevar. E, pelo que eu vejo, a grande diferença entre um animal qualquer e um humano de valor, é que a pessoa consegue identificar seus desejos e impulsos e os olhar de frente. Você pode dialogar com suas vontade e escolher ceder ou não.

Muitas pessoas são, de certa forma e por falta de palavra melhor, idealistas e dizem que os impulsos, desejos e paixões não podem ser controlados. E é ai que eu acho que entra o amor, que não é uma característica especialmente romântica, mas algo humano que todos podem ter, independentes de parceiros. Não é controlar, afogar ou se reeprender: É, simplesmente, escolher o que importa.

Isso vale para tantas coisas e de uma forma simplista, é a diferença de trair ou não, de ser senhor de si mesmo ou não, de transcender os instintos ou permanecer escravo de uma noção distorcida de liberdade.

Talvez o que eu esteja dizendo seja encarado como uma mudança de opinião. Na verdade, é uma reflexão sobre pensamentos anteriores. Não deixo de acreditar nos vários tipos de relacionamento, mas começo a ressaltar as características necessárias para cada um deles.

E no final de tudo isto, algumas pessoas choram e se desesperam porque têm medo de ficarem sozinhas, de morrerem sozinhas, porque afinal, “nós chegamos neste mundo sozinhos e é assim que vamos embora, não é?”. Eu não sei quanto a você, mas quase todos que eu conheço não chegaram neste mundo sozinhos.

Havia vários rostos esperando, o pai ansioso, a mãe chorando com algo que mistura dor, medo, entusiasmo e alegria. A gente não chega nesse mundo sozinho e quase nenhum de nós vive a vida sozinhos, sem ninguém. Nós apenas somos egoístas e cegos o suficiente pra achar que o amor romântico é o único que conta.

*Cecília Neves é escritora, curiosa sobre o sexo, escreve no Olhar Conceito aos domingos ou segundas e quer que você compartilhe experiências pelo e-mail cecilia.neves25@gmail.com ou clicando aqui.


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