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Domingo, 28 de abril de 2024

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'SP tem mais dinheiro e Rio transa mais', diz autor de 'Moleque transante'

Uma lontra, um pinguim, um dançarino de "passinho", a praia do Arpoador e uma música que mistura funk carioca e house dos anos 90 estão na estranha fórmula que resulta em "Moleque transante", do Rio Shock, que já soma 305 mil visualizações no YouTube. Em menos de dois meses, o vídeo deu destaque ao grupo idealizado por João Brasil, DJ e produtor de 35 anos. Junior Teixeira, do Monobloco, Filipe Raposo, os cantores Sabará e Dannie e o dançarino Safadin completam a formação.

Nesta sexta-feira (24), o Rio Shock faz a primeira apresentação da história do grupo, no evento Rider Weekends, no Jóquei Club do Rio. Eles saem da festa direto para o Meca Festival, em Maquiné (RS), onde tocam no sábado (25).
"Sensualizar", "Quebrete" e "Surreal" são outras músicas do EP digital lançado pelo grupo - um álbum completo é planejado para este ano. Os temas sensuais do grupo carioca aparecem pois "o funk sempre quer tratar da realidade", diz João ao G1. Enquanto o funk ostentação emplaca hits em São Paulo, "Moleque transante" entra no extenso rol da ousadia carioca. "É porque São Paulo tem mais dinheiro e no Rio o cara transa mais (risos). Sinceramente. Aqui tem praia, tem biquini, a pessoa já sai mais despida. SP é uma coisa mais séria", diz João. Leia a entrevista abaixo.
G1 – Por que voltar ao house e o funk dos anos 90?
João Brasil – Depois que voltei de Londres [para estudar e tocar], eu queria montar uma banda de funk carioca. Gosto muito de funk e sempre via o estilo com sucessos de um hit só. Isso sempre bateu na minha cabeça. Não tem uma banda que tenha um repertório. Aí eu ouvi nesse processo o disco do [duo britânico] Disclosure. Eu pirei com essa onda do revival dos anos 90. E fui trabalhando, montando a banda. Junto com o DJ Filipe Mustache, pesquisamos um monte de sons. Formamos um grupo, que foi trazendo gírias. "Moleque transante" foi o Sabará [vocalista] quem trouxe. Falou que estava "bombando" no morro. Eu idealizei e acabou virando um trabalho colaborativo.
Formamos um grupo, que foi trazendo gírias. 'Moleque transante' foi o Sabará [vocalista] quem trouxe. Falou que estava 'bombando' no morro."
João Brasil, músico do Rio Shock
G1 – A maior parte do funk atual tem uma produção bem mais simples que a do Rio Shock. O que acha deste funk atual?
João Brasil – Não dá para generalizar. Tem a produção que é só um beat e a voz. Já produtores como o Mãozinha, o Batutinha, estão levando para um lado mais pop. Mas eu acho que tem uma coisa muito elaborada, que são as montagens. Queremos resgatar as montagens antigas, as superproduções de colagens. São composições eletroacústicas mesmo. Tem esse lado muito rico que não está sendo tão explorado. Não tem o poder o sucesso que tinha na década de 90. O "Moleque transante" foi um mashup. De misturar mesmo house dos anos 90, esse lance que está rolando em Londres, com o funk carioca.
G1 – Como foi a composição da letra do 'Moleque transante'?
João Brasil – O Sabará trouxe a coisa da expressão. Eu peguei uma linha de teclado. Aí cantei o "Moleque transante" e pedi para a Dannie fazer. Eles "canetaram" o primeiro verso, e eu fiz os outros.
G1 – Mas quem é o 'moleque transante'?
João Brasil – "Moleque transante" é aquela coisa de "eu sou o cara". Não precisa nem ser de transar. Mas o cara é maneiro, descolado. E muitas pessoas entenderam dessa forma. Já está cheio de gente falando: "Eu sou transante", "camisa transante" etc.
G1 – Tem a ver com a personalidade carioca?
João Brasil – Tem total a ver. Até porque veio da gíria do morro. Eu não inventei a roda, já existia.
G1 – Por que, na sua opinião, o funk de SP fala mais de dinheiro e o do Rio fala mais de sexo?
João Brasil – Eu acho que é porque São Paulo tem mais dinheiro e no Rio o cara transa mais (risos). Sinceramente. Aqui tem praia, tem biquini, a pessoa já sai mais despida. SP é uma coisa mais séria, onde o rap de protesto bomba demais, por exemplo. Aqui é o povo do carnaval, da festa. SP é o business, é o centro empresarial. É natural que se manifeste dessa forma. E, com a classe C bombando, quer falar mesmo que pode comprar. O funk sempre quer tratar da realidade. Talvez com fantasia, aumentando uma coisa ou outra. Mas sempre tem a realidade.
Eu vi um outro lado do funk que as pessoas não enxergam. Quando eu fui à Alemanha, vi que os caras são loucos com música carioca. Mas lá a música eletrônica é outra coisa. Stockhausen é o Villa-Lobos deles. Para a gente é meio complicado."
João Brasil, músico do Rio Shock
G1 – Há muitas críticas ao funk no Brasil. É tratado muitas vezes como um estilo menos importante. E você estudou música no exterior [em Berklee, nos EUA]. Por que voltou para fazer eletrônica e funk?
João Brasil – Eu sou do Rio. Por mais que eu ouvisse jazz, música clássica, rock, metal, o funk está no meu DNA. Tocava muito dos meus 12 aos 18 anos, época em que você constrói sua personalidade musical. O funk estava muito forte. Na faculdade de música, eu ouvia o funk como nossa música eletrônica. As montagens são muito avançadas. Os caras fazem isso em comunidade. Eu vi um outro lado do funk que as pessoas não enxergam. Quando eu fui à Alemanha, vi que os caras são loucos com música carioca. Mas lá a música eletrônica é outra coisa. Stockhausen é o Villa-Lobos deles. Para a gente é meio complicado. A gente não tem uma cultura de música eletrônica assim.
G1 – O Safadin faz parte da banda ou esteve só no clipe?
João Brasil – Faz parte. Quando eu quis montar o grupo, sempre tive vontade de ter o dançarino. O passinho é bombado aqui no Rio. Eu já queria que tivesse um dançarino do passinho, mas fazendo música eletrônica.

G1 – Imaginava que o clipe tivesse tantas visualizações como hoje?
João Brasil – Confesso que eu pensava que tivesse mais. Isso é um viral. Já imaginei milhões de pessoas dançando. Eu estou feliz, e acho que vai aumentar ainda mais.
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