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Sábado, 13 de agosto de 2022

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TRÊS VARIEDADES

Após 20 anos de estudos, doutora encerra pesquisa e prevê lançamento oficial de pequi sem espinhos em novembro

Foto: Reprodução / Ilustração

Após 20 anos de estudos, doutora encerra pesquisa e prevê lançamento oficial de pequi sem espinhos em novembro
De cheiro forte, cor alaranjada, polpa saborosa, carnuda e sedosa, o pequi é uma das iguarias da culinária do cerrado e possui também uma característica incomum: os espinhos. Eles exigem que os amantes do fruto o roam com muito cuidado. Agora, o miolo espinhento está com os dias contados graças aos longos anos de pesquisa coordenados pela Doutora Elainy Pereira e o doutor Ailton Pereira.

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Após 20 anos de pesquisa, realizada pela   Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), variedades do fruto, com e sem espinhos, tem previsão de chegar ao mercado no início de novembro.

Para a pesquisadora, que dedicou 40 anos de sua vida à pesquisa, a sensação é de dever cumprido tanto à sociedade quanto ao produtor familiar.

“Então eu me preocupava em dizer ‘olha, fiquei 40 anos para o governo, o que foi que eu fiz? O que foi que eu deixei?’. Então, eu deixei um banco de germoplasma com 1000 plantas selecionadas de pequi para que qualquer produtor, não só de Goiás, mas do Brasil”.

Os estudos se iniciaram a partir da demanda dos pequenos produtores goianos, por volta do ano de 1998. Na época, frente à exigência de uma reserva legal nas áreas cultivadas, que tivesse 20% das propriedades rurais, o pequeno produtor viu no pequi uma possibilidade de fazer bom proveito das determinações.

“Então ele, o produtor, pensou em pequi. Que é uma planta do cerrado e que já tem um comércio, principalmente para o agricultor familiar”.

Inicialmente, os produtores enfrentaram dificuldades em fazer com que o fruto gerasse uma produção que rendesse lucro, ou pelo menos, não desse prejuízos diante das obrigatoriedades da reserva legal. A principal adversidade foi a germinação, por conta da dormência do pequi.

Diante disso, o trabalhador começou a procurar ajuda das empresas públicas de pesquisa e assistência para conseguir levar a produção adiante.

 “O produtor tentou fazer mudas de pequi, mas não conseguiu porque o pequi tem dormência. Você planta, de 6 sementes, só cinco nascem. Então tem que ser um processo de quebra de dormência. Então quando o produtor tentou plantar e não nasceu, ele começou a procurar a Emater Goiás, a Embrapa Cerrados, em busca de tecnologias para plantar isso, por força de lei”.

Foi aí que Elainy entrou na pesquisa. Mestre e Doutora em engenharia agrônoma, amante do reino vegetal e com uma vida pautada em não agredir o meio ambiente, ela foi procurada pelas empresas com intuito de coordenar a pesquisa, por volta de 1998, quando tinha recém saído do doutorado, para auxiliar o pequeno produtor. 

“Então nós fomos convocados nessa época. Aí eu cheguei meio bobona do doutorado e peguei a demanda para fazer essa pesquisa. Eu amo o cerrado e o reino vegetal e o que eu puder fazer para preservá-lo, eu estarei cumprindo uma missão minha. Então eu fui convidada pelo diretor da Emater e os da Embrapa a fazer uma equipe com eles, eu coordenando, para resolver esse problema. Então nós começamos como fazer mudas, como quebrar dormência, como adubar, como irrigar, como controlar, conviver com pragas e doenças. Nós fomos fazendo isso”.


(JUNQUEIRA, Nilton Tadeu Vilela)

Passados cerca de 8 anos do estágio inicial, que envolveu levantamento de dados, o modo de fazer mudas, o jeito de quebrar a dormência, irrigação, adubação, a pesquisa entrou em uma nova missão. Era preciso encontrar uma planta de pequi que fosse rentável ao produtor, que rendesse frutos com a qualidade exigida pelo mercado, sem tanta demora para a colheita.

“Você pode plantar um caroço de pequi, vai demorar sete anos no mínimo para ela começar a produzir e aquela planta pode sair um pequi pequeno, branquinho, amargo e sem valor comercial. Isso para o produtor que queria ganhar dinheiro não era interessante. Então nós tínhamos que fazer um clone”.

A missão então se debruçou em achar alguma variedade que atendesse as características que o consumidor prefere no fruto: polpa alaranjada, expeça, com sabor agradável. Uma variedade que devolvesse ganhos ao produtor.

Nesta fase, a doutora buscou todas as tecnologias de produção de mudas e tecnologia de clonagens para realizar a enxertia - método utilizado por especialistas que trabalham com plantas (como botânicos ou agrônomos) e consiste na união de duas espécies diferentes. “A partir desse momento, começamos a buscar na natureza plantas com características boas para o comércio”.

O método de procura seguiu os seguintes parâmetros: o produtor procurava a Emater e a Embrapa e apresentava seu produto, de sua respectiva propriedade e tirava a raça da planta. Numa dessas procuras, um produtor de Cocalinho-MT (873km de Cuiabá) buscou a pesquisa e alegou que tinha o pequi sem espinho. Na época, temendo perder sua produção, pois sua plantação havia sido queimada diversas vezes, procurou a doutora para fazer a clonagem.

Então, a pesquisa foi até o município de MT, produziu 20 clone e os levou até a Emater Goiás, para plantar no banco de germoplasma. Com o banco cheio, os estudos focaram em avaliar as características de todos esses exemplares para oferecer ao produtor o melhor produto possível. De 2008 até junho de 2022, a pesquisa avaliou a produção, ataques de praga, de doença e toda instabilidade do material.

“E agora esse ano, nós registramos no ministério da agricultura três cultivares sem espinhos e três com espinhos. Nós temos material com espinho também muito bom de popa grossa, alaranjado, sabor agradável, alta produtividade”.

O lançamento dos cultivares com e sem espinhos está previsto para o dia 9 de novembro, com oferta aos viveiristas credenciados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Serão organizados editais com convocação dos credenciados para a oferto do material. “E ele vai produzir para atender ao público, aos produtores”.

Questionada se o produto já vai estar preparado para o mercado, Elainy deixou claro que se tivesse 1 milhão de mudas para vender, ela venderia todas. Pontuou também que há procura do sul ao norte do país, inclusive de produtores de outros países em busca do pequi.

“Então você vê que do Rio Grande do Sul a Manaus querem pequi. Eu já recebi telefonema dos Estados Unidos brasileiro que mora lá e quer vender pequi. Então eu acho que tem uma grande possibilidade de ser sucesso no mercado”.
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