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Terça-feira, 09 de agosto de 2022

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teoria infundada

Ratanabá: primeiro estudante de arqueologia do Xingu diz que lenda de 'cidade perdida' desrespeita história indígena

Foto: Arquivo pessoal / Kamariwé Waurá

Ratanabá: primeiro estudante de arqueologia do Xingu diz que lenda de 'cidade perdida' desrespeita história indígena
Neste mês, a falsa teoria sobre Ratanabá, uma cidade perdida no coração da Amazônia, na região norte de Mato Grosso, ganhou corpo nas redes sociais. Enquanto alguns apontaram o caráter fictício da lenda e outros o mascarado interesse econômico na exploração da Amazônia, o primeiro indígena do Parque Indígena do Xingu (PIX) a estudar arqueologia defende que os boatos também ignoraram a história dos povos originários do País.

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“Do nada se aparece e fala que é uma cidade perdida, embaixo da Amazônia. Pra mim ela está dizendo que a nossa história dos povos indígenas do Brasil não existe. Isso foi muito ruim. Até hoje as vezes eu fico lendo o que eles fizeram”, disse Kamariwé Waurá, de 31 anos de idade, ao Olhar Conceito

Natural da aldeia Piyulaga, o indígena sempre teve interesse pela história de seus ancestrais. Desde criança, começou a aprender sobre a origem do seu povo com os pais e avós. A arqueologia cruzou seu caminho em 2014, quando conheceu a arqueóloga Suzana Hirooka, durante uma pesquisa de campo realizada na gruta Kamukuaká, no PIX. Desde então, começou a acompanhar Hirooka em suas expedições e, em 2018, ganhou uma bolsa de estudos para estudar arqueologia na PUC-Goiás, se tornando o primeiro do Xingu a cursar esta graduação. . 

À reportagem, ele contou que a teoria de Ratanabá, além de infundada, ignora a existências dos indígenas como possuidores de história e conhecimento sobre a Amazônia, região onde a suposta cidade perdida estaria submersa. O argumento é sustentado, principalmente, pelo fato dos povos serem os habitantes originários da área sobre a qual os boatos se debruçaram. 
Eu fiquei triste. ‘Toma a cidade perdida ali’. Então quer dizer que não existe história indigena mais?”


Kamariwé durante expedição. Arquivo Pessoal.

"Porque o pesquisador que passou lá naquela região ao invés de falar, ele não foi procurar os indígenas que moram lá. Por exemplo, os apiacás, os mundurukus que moram lá. Porque ele não perguntou para eles se eles tinham conhecimento. Os povos indígenas do Brasil, qualquer coisa que você estranhar, eles têm conhecimento sobre aquele local”, argumentou. 

Kamariwé, que sonha em poder contribuir para que sua cultura e seu povo sejam conhecidos através da arqueologia, conta que Ratanabá deixa uma mensagem triste: a de que a história indígena é apagada, ou dissimuladamente ignorada, ocasionalmente. 

“Eu fiquei triste. [Quer dizer que] a nossa cultura totalmente acabou? Parece que a gente chegou ao fim do mundo. ‘Toma a cidade perdida ali’. Então quer dizer que não existe história indigena mais? Eu fiquei triste”, lamentou. 

Fake news e desvalorização da cultura indígena 

O geólogo Caiubi Kuhn, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), concorda com Kamariwé. Para ele, além de não haver dúvidas de que Ratanabá não passa de fake news, os boatos desconsideram a existência da cultura precursora dos indígenas na região. 

“Mato Grosso possui importantes registros arqueológicos, como o Sítio Santa Elina, que possui datação de até 27 mil anos. Além disso inúmeros outros sítios contam a história da arqueologia na Amazônia, Pantanal e Cerrado. Os povos que aqui viviam possuíam uma cultura muito rica, fake news como a Ratanabá ignoram tudo isso”, enfatiza. 

Entre as inconsistências apontadas pelo geólogo na teoria de Ratanabá está, por exemplo, a datação da cidade. Em algumas publicações, se fala em até 450 milhões de anos, o que, do ponto de vista científico, é impossível. 

“Neste momento da história do planeta, a vida se resumia basicamente aos oceanos. Os anfíbios, répteis, mamíferos ou mesmo as plantas terrestres nem sequer existiam ainda. A história humana se resume a algumas centenas de milhares de anos, e não a milhões de anos”, explicou Kuhn. 

Ele também comentou as fotos divulgadas pelos boatos. “Elas na verdade são de vários locais, do Forte Príncipe da Beira, outras são ruínas em outros países.”

Forte Príncipe da Beira, em Rondônia. (Foto: Ministério do Turismo)

Entre os argumentos da teoria também estão o avistamento de linhas retas na floresta amazônica, especificamente na região norte do estado, entre uma região pertencente ao município de Apiacás. Os riscos, segundo a teoria, seriam túneis subterrâneos que serviam para dar entrada à dita cidade perdida. Mas conforme o biólogo, a história não é bem assim. 

“Essas estruturas lineares são resultado do modelamento do relevo. A dinâmica interna do planeta movimenta a crosta terrestre por meio das placas tectônicas, e a dinâmica externa, realiza a alteração e erosão das rochas. Entre os processos de dinâmica interna, são muito comuns, por exemplo, dobramentos ou deslocamentos de blocos rochosos por meio de falhas geológicas.”, disse.

“Toda vez que um terremoto acontece, significa que no interior do planeta um bloco está se deslocando em relação a outro. Quando essas rochas ficam expostas ao sol, chuva entre outros agentes da dinâmica externa, as áreas próximas a essas estruturas lineares tendem a ser erodidas de forma diferente das rochas que estão no entorno.”, acrescentou. 

Por fim, ele defendeu: “Acredito que o fato de fake news como essa se espalhar tão facilmente pela sociedade, mostra o quanto precisamos ampliar a divulgação de ciência e fortalecermos o ensino do nosso país.”
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