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Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

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O desequilíbrio cultural mato-grossense

Arthur Santos da Silva

05 Ago 2014 - 14:58

Volto, renovado de cansaço e novas dificuldades, com a coluna História, Memória e Arte. Durante as semanas de ócio, pensei, de forma recorrente e prazerosa, em como caminha a divulgação cultural em Mato Grosso. Nessa ponderação, refiro-me a toda e qualquer representação humana elegida como arte: imensidão que beira o infinito nas ondas das nossas paisagens quase nunca espelhadas. Por ser uma reflexão, torna-se coisa difícil de imaginar. Um assunto individual e etéreo. É Justamente nesse caminho sem chão que pretendo pisar hoje. Deixo claro que minha vontade de convencer morreu junto com o gosto que sentia pela ciência da verdade. Tudo explicado, inicio.



Desde o dia que passei a sentir interesse pelas manifestações artísticas mato-grossenses, notei um vazio angustiante. Eu, jovem inerme, não entendia como um estado de beleza inexplicável poderia sofrer sem língua, amordaçado e com suas expressões - mesmo as tradicionais - reprimidas. A agonia da falta de resposta sobre este vácuo representativo me trazia um desgosto saboroso. Foi aí que, excitado por minha imaginação carente de carne, pude perceber o caráter elitista do "espírito coletivo" responsável por escolher nossos traços simbólicos. Não me refiro, neste ponto, aos editais culturais de livre concorrência ou aos ambientes apoiadores da arte: ambos são apenas instrumentos de causas.

Mesmo em poucos números, os espaços culturais existem. Esse não é o maior problema. Meu aborrecimento deu-se ao notar a importância exclusiva depositada nestes ambientes e em tudo que os cercam. A parábola parece surgir de um acordo geral. Se o livro ralo não for apresentado em um coquetel formoso, não vale. Se o texto não for sobre coisa bonita, não presta. Assim, foi criado um círculo superior, quase dourado, que paira sobre a sujeira da superfície citadina cuiabana. Nesta perspectiva, o homem que não possuir o perfil adequado e a capacidade de escrever releases agradáveis para os jornais frouxos, inexistirá. Assombrados, esquecemos que arte independe do entendimento leviano. Como escreveu Sá de Miranda, "Sonhamos sonhos alheios, os nossos não sonhamos".



A tristeza de toda a situação é materializada quando novas perspectivas são brecadas. Jovens sufocados crescem em paralelo de aflição ignorada. A nebulosidade, fruto da estupidez comum da atrapalhada e cosmopolita Cuiabá, maltrata quem quer cultura. Ainda não entendemos a arte como uma manifestação individual, inexplicável, multilateral, que destrói qualquer limite físico, merecendo, assim, uma exposição infinda. O caráter elitista do que é reconhecido como cultura cuiabana é um problema que nasce no cotidiano e perdura por nossas variadas máquinas comunicativas. Até mesmo a irrealidade é construída. Assim, espero o dia que uma chuva anarquista de palavras desabe em nossa consciência e tudo transcenda. Enquanto isso, por aqui, consumir poesia é caro e quem sofrer por claustrofobia ou alergia a soja morrerá de fome.

O ponto engraçado deste caso é a sensação contraditória que marca um vinco de estupidez na testa de cada um. Não vivemos em um mundo unicamente físico. A existência do homem parte de pressupostos simbólicos: nossos significados surgem de conversas consigo mesmo. Atos individuais. Dentro deste conjunto de significados/representações partilhados e construídos pelos homens com o propósito de explicar o mundo, a arte brota por inércia, sem trabalho algum. Sendo assim, considero zotismo que um círculo superior, "quase dourado", reja o que devemos observar e absorver.




Com muito achego as particularidades, nego que enfiem qualquer cabresto em minha fuça. Da podridão ao piso branco, tudo é passível de beleza. Que novos monumentos ganhem existência a cada segundo - em valimento a nossa memória - e nada sobreponha a generosidade da subjetividade corrente, seja na arte ou na consciência presente. Todas expressões verdadeiras, por mais periféricas que possam parecer, merecem respeito e apoio. O trabalhador sem-terra cicatrizado em versos tristes possui a mesma leveza do imortal da Academia Mato-grossense de Letras.

Expresso o meu sinal de respeito a todos os cuiabanos que conseguem sobreviver pela arte. Termino aqui, deixando uma pequena prosa:

"A minha prosa combativa é bomba de desejo. Nesta guerra de clarões, cada relâmpago é único. Meu tiro no teu peito de cartesiano nada tem. O sangue esguicha sem rumo. A dor é tua. Mesmo o rato criado com o queijo caro dos outros, mesmo a morte contraposta ao apetite alheio, mesmo o sarrafo bem cuidado na boca seca e doente... Nada transforma o que é gasoso em matéria. Sóbrio ou ébrio, mate a moral e abrace a estética. Não deixe os raios dos teus olhos submergirem em verdades. Mergulhe na alma. De comer ou de cuspir, basta escolher liberdade."

*Arthur Santos da Silva é formado em história pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atualmente, cursa jornalismo na mesma instituição, trabalha no Olhar Jurídico e é membro pesquisador/CNPq do grupo História, Arte, Ciência e Poder. Email para contato: arthur.santos.1213@gmail.com

4 comentários

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  • Flávia
    06 Ago 2014 às 10:39

    Concordo com a Eliane. Não entendo a linguagem rebuscada pra falar de cultura marginal, como diz o autor. Este texto está mais pra academia do que pra boteco.

  • Guilherme Vaz
    06 Ago 2014 às 10:11

    99% de despeito...

  • Eliane Fernandes
    05 Ago 2014 às 20:44

    Gostaria de cumprimentar pelo artigo e sua indignação diante da realidade cultural cuiabana, entretanto confesso que a linguagem deveras rebuscado utilizada pelo autor me fez questionar por inúmeras vezes o motivo de seu utilização, penso que esse tipo de linguagem colabora com o afastamento das massas das manifestações culturais tão pouco presentes em nossa cidade, tornar a arte acessível, é uma das grandes preocupações e penso que poderíamos começar com a produção de texto de fácil compreensão, alcançando assim o maior numero de pessoas possíveis.

  • Rogê Além
    05 Ago 2014 às 18:32

    Só digo: trata-se de uma análise profunda e realista sobre a essência ou falta dela na arte de nossa cidade. No caso, o bonito é ser feio.

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