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Cuiabana conta como foi sua primeira visita ao interior da França

Especial para Olhar Conceito - Stéfanie Medeiros

25 Mai 2015 - 16:01

Foto: Arquivo Pessoal

Cuiabana conta como foi sua primeira visita ao interior da França
(A escritora e jornalista cuiabana Stéfanie Medeiros começou uma nova aventura ao mudar de ares e começar uma temporada na Europa. Inspirada por suas referências literárias e pelas maravilhas de passar pelos mesmos lugares que suas grandes inspirações, rodeada de cafés, pessoas e lugares diferentes, ela começou um diário virtual. Suas notas de viagem voltaram para a coluna que ela já possuiu no Olhar Conceito, " Caderno H").

Notas de viagem (Décimo nono dia: 20 de maio de 2015, Bordeaux, França)

Bordeaux é muito amor. Cidade fofa e com aspecto tranquilo. Acho que eu seria feliz em Bordeaux.

- No caminho, passamos na casa da mãe da minha anfitriã. Que casa, enh, amigos. Que casa! O jardim dela costumava ser público, só para você ter uma noção.

- Digno de nota também a inexplicabilidade do meu cabelo. Em parte porque eu esqueci a chapinha em Paris. A outra porque eu estou tipo "Ah, quer saber? Foda-se. Vou cortar tudo no salão do Alexandre mesmo". Faz mais de três semanas que não uso uma escova.

- Andando pelo Palais Rohan (que na verdade é uma praça), tinha uma banca com uma propagada de um livro do Paulo Coelho. Sério, tenho provas.

- Sem muito tempo para me perder, andei somente pelas redondezas do Hotel d’Ville. Em uma rua muito bonitinha, tinha um bistrô com umas opções deliciosas (e baratas) de almoço. Entrei. Que bistrô mais fofo. As tolhas de mesa eram quadriculadas de vermelho e branco. A iluminação amarelada vinha de abajures nas mesas e pequenas luzes no teto. Na parede, dezenas de fotos em preto e branco de celebridades. Tinha até uma daquelas filmadoras antiguíssimas. Sobre a comida: ME AJUDA. Nossa, sai rolando.

- Entrada: Tomates frescos com queijo mozarela de búfala e ervas finas. Prato principal: 250 gramas de uma carne "x" com batatas fritas caseira e salada verde. Sobremesa: Mousse de chocolate e café expresso (carinhosamente apelidado de "café normal"). Tudo isso ficou melhor com o atendente bonito e simpático que achou até o último minuto que eu falava francês.

- Não consigo saber se emagreci ou se engordei. Mas a avaliar pelo cardápio, provavelmente é a segunda opção.

- Música ambiente: Violinos.

- Agora eu posso dizer, meus amigos, que eu sou uma pessoa 100% urbana. No mínimo 96% urbana. Eu sou feliz na cidade. Quanto melhor a região, mais feliz eu sou. Mas atualmente, qualquer lugar que tenha mais pessoas que cavalos está servindo (ainda mais aqui na França).

- Uma viagem que faremos em algumas semanas terá como destino Lascaux, aonde tem aquelas cavernas com as pinturas rupestres mais antigas do mundo (ou uma das mais antigas).

Conversando com as outras pessoas (daqui da Europa) sobre a vida delas, vejo que a minha vida sempre foi privilegiada. O que me falta mesmo é maturidade emocional. O meu medo é não aproveitar plenamente os privilégios para coisas enriquecedoras, tipo viajar <3 (ou terminar a porcaria do grande romance latino americano).

Fui obrigada a comprar meias em Bordeaux. Eu, esperta, trouxe só dois pares. Esses dois pares podem ir pro lixo (mas prometo que tentarei salvar).

- No centro de Bordeaux tinha aquelas estátuas vivas que estão fazendo sucesso na internet agora por parecerem que estão flutuando. Fiquei olhando por um tempão e não descobri como eles ficam no ar daquele jeito.

No museu de belas artes de Bordeaux:

- A entrada do museu custa só quatro euros. Achei barato. Não que o museu seja enorme, mas enfim.

- Os jardins. Ah, os jardins! Aprenderei jardinagem, sem desculpas. Já tenho projetos em andamento.

- O quadro "São sebastião sendo ajudado por Irene", por autor anônimo do século XVII, tem um jogo perfeito de luz e sombra. E a expresso de São Sebastião enquanto Irene tira a flecha de suas costelas é de prazer, não de dor. Irene, ao contrário, está super concentrada.

- Provavelmente eu seria considerada muito mais bonita no século XVII. Pode até ser que me achassem magra demais.

- Eu AMO esses bosques e florestas em pinturas realistas. São supostamente realistas e só "retrato de como realmente é", mas eu acho que elas transmitem sensações. Às vezes até ouço o vento nas árvores.

- O quadro "A abdução de Ganymède", de Pierre Paul Rubens, 1640, é desconcertante. Nele, temos um anjo nu sendo carregado por uma águia. O anjo, no entanto, tem o corpo masculino, mas as genitálias ou inexistentes ou femininas. Se olharmos mais de perto, perceberemos que faz mais ou menos duas semanas que ele se depilou no salão. ( O pintor deve estar se revirando no caixão agora).

- Até na pintura a Maria de Médicis é assustadora. Obra de Anton Van Dyck, de 1641.

- Medonha a situação retratada nos quadros "Galley slaves", de Alessandro Magnasco (1667 - 1749). Lama, sangue, fumaça, tortura, homens sendo tratados como animais. Em um dos quadros, um dos escravos está com uma máscara de boi. Logo a frente, estão os retratos da galera rica dessa mesma época. Que diferença! Quase consigo sentir o cheiro de lavanda nestes outros.

- No instagram, minhas fotos preferidas são as de livros com xícaras de café ao lado. Posso passar o dia todo olhando essas imagens. Consequentemente, em um museu, amo as pinturas de objetos como livros, cadernos, lápis, pincéis, etc. Procurem no Google "Les beaux-arts", de Nicolas Henry Jeaurat de Bertry. Que delícia de quadro.

- A princesa de Orange-Nassau, Frederika Louise Wilhemina, parecia-se muito com a Maria Antonieta. Seguia a moda da rainha, isso posso dizer com certeza. (Quadro de Johann Fredirech August Tischebein, que morreu em Heidelberg em 1812. Mas isso é só curiosidade. Tudo que diz respeito a Heidelberg agora me interessa).

- No quadro “Leander e Hero”, de Jean-Joseph Taillasson, a mulher parece estar dizendo: "Porra caralho, falei pra você não nadar depois do almoço!".

- Quadro "Grécia nas ruínas de Messologhi", de Eugene Delacroix: A expressão e o decote da mulher definem a palavra "fierce".

- Em um quadro de Henri Gervex, vemos uma mulher nua deitada em uma cama cheia de lençóis e edredões. As milhões de camadas das roupas dela estão no chão. Ao lado da janela, que tem vista para a cidade, um homem completamente vestido olha para a nudez da moça adormecida. A cartola dele também estão no chão. Sabe qual o nome desse quadro? "Rolla".

Sobre o quadro “Rolla”: A cena foi inspirada em um poema de Alfred de Musset entitulado “Rolla”: Jacques Rolla decide cometer suicídio depois de uma última noite de paixão com sua amante Marion. A pintura foi um escândalo em 1878.

- Eu vejo quadros de Soutine e automaticamente já me lembro do filme "O sorriso de Mona Lisa". Aqui em Bordeaux, temos o "o homem azul na estrada".

- É muito estranho ver uma pintura do Picasso só com os traços cinzas, como se fosse um rascunho.

- Pesquisar Instituto Goethe para a próxima visita.

1 comentário

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  • Fernando
    25 Mai 2015 às 17:11

    FANTÁSTICO COMO STÉFANIE MEDEIROS DESCREVE OS LUGARES NA FRANÇA. SOU FÃ DE SEUS ARTIGOS E APAIXONADO POR PARIS.

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